terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

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Os dons do Espírito Santo: Perguntas Gerais.

• Que são dons espirituais?
• Quantos dons existem?
• Alguns dons cessaram?
• Como buscar e usar dons espirituais?


1. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA

A. Perguntas associadas aos dons espirituais em geral.
Nas gerações anteriores, os livros de teologia sistemática não continham capítulos sobre os dons espirituais, porque havia poucas questões com respeito à natureza e ao uso deles na igreja. Mas o século XX presenciou um aumento notável no interesse pelos dons espirituais, principalmente por causa da influência dos movimentos pentecostal e carismático na igreja. Neste capítulo vamos analisar brevemente as questões gerais com respeito aos dons espirituais, a seguir examinaremos a questão específica sobre se alguns dons cessaram. Neste capítulo analisaremos o ensino do NT a respeito de dons específicos.
[Estou usando os termos pentecostal e carismático com o seguinte significado: pentecostal refere-se a qualquer denominação ou grupo que tem sua origem histórica no reavivamento pentecostal que começou nos Estados Unidos em 1901 e que sustenta as posições doutrinárias de que a) o batismo no Espírito Santo é um evento subseqüente à conversão; b) o batismo no Espírito Santo torna-se evidente pelo sinal de falar em línguas e c) todos os dons espirituais mencionados no NT devem ser buscados e usados hoje. Os grupos pentecostais usualmente têm estruturas denominacionais distintas, sendo a Assembléia de Deus a mais proeminente.
O termo carismático refere-se a quaisquer grupos (ou pessoas) que têm origem histórica no movimento de renovação carismática dos anos 1960 e 1970, procuram praticar todos os dons espirituais mencionados no NT (incluindo profecia, curas, milagres, línguas, interpretação e discernimento de espíritos) e permitem perspectivas diferentes sobre se o batismo no Espírito Santo é subseqüente à conversão e se línguas é um sinal do batismo no Espírito Santo. Com muito maior freqüência os carismáticos evitam formar suas próprias denominações, antes vêem a si mesmos como uma força de renovação dentro das atuais igrejas protestantes e da Igreja Católica.]
Antes de começar a discussão, contudo, podemos definir dons espirituais da seguinte maneira:
“Um dom espiritual é qualquer habilidade que é concedida pelo Espírito Santo e usada em qualquer ministério da igreja. Essa definição ampla inclui tanto os dons que estão relacionados às capacidades espirituais (como ensino, misericórdia ou administração) quanto os dons que parecem mais miraculosos e menos relacionados a capacidades naturais (como profecia, curas ou discernimento de espíritos).A razão para isso é que, quando Paulo menciona os dons espirituais (Rm 12.6-8; lCo 7.7; 12.8-10,28; Ef 4.11) ele inclui ambas as espécies de dons. Todavia, nem toda capacidade natural que as pessoas têm está incluída aqui, porque Paulo é claro ao mencionar que todos os dons espirituais devem ser autorizados “pelo mesmo e único Espírito” (lCo 12.11), que eles são dados “visando ao bem comum”(lCo 12.7) e que todos eles devem ser usados “para a edificação da igreja”(lCo 14.26).

1. Os dons espirituais na história da redenção.
Certamente o Espírito Santo estava em operação no AT, trazendo pessoas à fé e trabalhando de modo notável em alguns poucos indivíduos como Moisés ou Samuel, Davi ou Elias. Mas em geral havia uma atividade menos poderosa do Espírito Santo na vida da maioria dos crentes. Havia pouca evangelização eficaz das nações, não havia expulsão de demônios, curas miraculosas eram incomuns (embora tivessem acontecido, especialmente nos ministérios de Elias e Eliseu), a profecia era restrita a poucos profetas ou pequenos grupos de profetas e havia pouca experiência do que os crentes do NT chamariam de “poder da ressurreição” sobre o pecado, no sentido de Romanos 6.1-14 e Filipenses 3.10.
O derramamento do Espírito sobre a igreja com a plenitude e o poder da nova aliança ocorreu no Pentecoste. Com isso, uma nova era na história redentora estava inaugurada, e a capacitação da nova aliança do Espírito Santo que fora profetizada pelos profetas do AT (cf. Jl 2.28,29) havia chegado ao povo de Deus; a era da nova aliança se iniciara. E uma característica desta nova era veio a ser a distribuição muito ampla de dons espirituais a todas as pessoas que se tornaram participantes da nova aliança —filhos e filhas, jovens e velhos, servos e servas, todos receberam uma capacitação do Espírito Santo na nova aliança, e assim esperava-se que todos recebessem também dons do Espírito Santo.

2. O propósito dos dons espirituais na era do NT.
Os dons espirituais são dados para equipar a igreja a fim de que ela desenvolva seu ministério até que Cristo retorne. Paulo diz aos coríntios: “De modo que não lhes falta nenhum dom espiritual, enquanto vocês esperam que o nosso Senhor Jesus Cristo seja revelado” (lCo 1.7).Aqui ele conecta a posse dos dons espirituais e a situação deles na história da redenção (esperando pelo retorno de Cristo), sugerindo que os dons são dados para a igreja para o período entre a ascensão de Cristo e o seu retorno. Semelhantemente, Paulo olha em direção ao tempo do retorno de Cristo e diz: “Quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá” (lCo 13.10), indicando também que esses dons “imperfeitos” (mencionados nos v. 8 e 9) estarão em operação até que Cristo retorne, quando eles haverão de ser substituídos por algo muito maior. De fato, o derramamento do Espírito Santo com “poder” no Pentecoste (At 1.8) era para equipar a igreja para pregar o evangelho (At 1.8) — algo que continuará até que Cristo retorne. E Paulo lembra aos crentes que no uso que eles fazem dos dons espirituais devem procurar “crescer naqueles que trazem a edificação para a igreja” (lCo 14.12).
Mas os dons espirituais não somente equipam a igreja para o tempo do retorno de Cristo, eles também antecipam a era por vir. Paulo lembra aos coríntios que eles foram “enriquecidos em toda a sua linguagem e em todo o seu conhecimento, e que o resultado desse enriquecimento era que eles não tinham falta de nenhum dom (lCo 1.5,7). Exatamente como o próprio Espírito Santo aparece nesta época como a garantia do pagamento inicial — o selo (2Co 1.22; cf. 2Co 5.5; Ef 1.14), que é o começo de uma obra sua dentro de nós mais plena no futuro, assim os dons que o Espírito Santo nos dá são uma amostra de uma obra mais plena que ele fará e que será nossa no tempo que ainda vai chegar.
Desse modo, os dons de discernimento prefiguram um discernimento muito maior que teremos no tempo do retorno de Cristo. Os dons de conhecimento e sabedoria prefiguram uma sabedoria muito maior que será nossa quando conhecermos “plenamente, da mesma forma como [somos] plenamente [conhecidos]” (cf. lCo 13.12). Os dons de cura dão uma antevisão da saúde perfeita que será nossa quando Cristo nos conceder os corpos ressuscitados. Paralelos similares poderão ser encontrados em relação a todos os dons do NT. Mesmo a diversidade de dons deve conduzir à unidade e à interdependência maiores na igreja (v. lCo 12.12,13,24,25; Ef 4.l3), e essa diversidade na unidade será em si mesma o prenúncio da unidade que os crentes terão no céu.

3. Quantos dons há? As cartas do NT mencionam dons espirituais específicos em seis passagens diferentes. - 3
3. Considere a seguinte tabela:

1Coríntios 12.28
(2) profecia
19. liderança
1. apóstolo - 4
12. discernimento de espíritos
20. misericórdia
2. profeta
(8) línguas
lCormtios 7.7
3. mestre
13. interpretação de línguas
21. Casamento
4. milagres
Efésios 4.11 - 5
22. Celibato
5. dons de curar
(1) apóstolo
1 Pedro 4.11
6. prestar ajuda
(2) profeta
Seja quem for que fale (compreendendo vários dons)
7. administração
14. evangelista
sejam quer for que sirva (compreendendo vários dons)
8. línguas
15. pastor-mestre

lCoríntios 12.8-10
Romanos 12.6-8

9. palavra de sabedoria
(2) profecia

10. palavra de conhecimento
16. serviço

11. fé
(3) ensino

(5) dons de curar
17. dar ânimo

(4) milagres
18. contribuição

3 - Algumas listas incluem tanto os ofícios como os dons.
4 - Estritamente falando, ser apóstolo é um ofício, não um dom.
5 - Esta lista fornece quatro tipos de pessoas em termos de ofícios ou funções e não, estritamente falando, quatro dons. Para três das funções desta lista, os dons correspondentes seriam profecia, evangelização e ensino.
O que é óbvio é que essas listas são todas totalmente diferentes. Nenhuma lista tem todos os dons, e nenhum dom é mencionado em todas as listas. De fato, lCoríntios 7.7 menciona dois dons que não estão nas outras listas, no contexto do casamento e do celibato, Paulo diz: “cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus; um de um modo, outro de outro”.
Esses fatos indicam que Paulo não estava tentando construir listas exaustivas de dons quando especificou alguns deles. Embora haja às vezes a indicação de alguma ordem (ele coloca apóstolos em primeiro lugar, depois profetas, mestres em terceiro, mas línguas em último em lCo 12.28), parece que em geral Paulo estava quase casualmente listando séries de exemplos diferentes de dons à medida que eles vinham à sua mente.
Além disso, há algum grau de sobreposição entre os dons listados em vários lugares. Sem dúvida o dom de administração (kybernёsis, lCo 12.28) é similar ao dom de presidência (ho proistamenos, Rm 12.8), e ambos os termos poderiam provavelmente ser aplicados a muitos que possuem o oficio de pastor-mestre (Ef 4.11). Ademais, em alguns casos Paulo lista uma atividade e em outros casos lista o substantivo relacionado que descreve a pessoa (como “dom de profetizar” em Rm 12.6 e em lCo 12.10, mas ”profetas”em lCo 12.28 e Ef4.1 1).
Quantos dons diferentes temos então? Simplesmente depende do quanto queremos ser específicos. Podemos fazer uma lista muito pequena de somente dois dons, como Pedro faz em lPedro 4.1 1:”Se alguém fala, faça-o como quem transmite a palavra de Deus. Se alguém serve, faça-o com a força que Deus provê”. Nessa lista de somente dois itens, Pedro inclui todos os dons mencionados em qualquer outra lista porque todos eles se encaixam em uma dessas duas categorias. Outras classificações de dons incluem dons de conhecimento (como discernimento de espíritos, palavra da sabedoria, e palavra de conhecimento), dons de poder (como milagres, curas e fé) e dons de falar (línguas, interpretação e profecia). E poderíamos ainda fazer uma lista muito mais longa, como a lista de 22 dons enumerados anteriormente.
A questão central em tudo isso é simplesmente dizer que Deus dá à igreja uma variedade espantosa de dons espirituais, e eles todos são sinais de sua graça múltipla. De fato, Pedro diz:
“Cada um exerça o dom que recebeu para servir os outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas” (1 Pe 4.10; a expressão “múltiplas formas” é poikilos, que signifi­ca “ter muitas facetas ou aspectos; ter rica diversidade”).
O resultado prático desta discussão é que devemos ter o desejo de reconhecer e apreciar as pessoas que têm dons que diferem dos nossos e de nossas expectativas do que certos dons deveriam representar. Ademais, uma igreja sadia terá uma grande diversidade de dons, e essa diversidade não deve conduzir à fragmentação, mas à unidade maior entre os crentes na igreja. O argumento integral de Paulo na analogia do corpo com muitos membros (lCo 12.12-26) é dizer que Deus colocou-nos no corpo com essas diferenças de modo que pudéssemos depender uns dos outros. “O olho não pode dizer à mão: ‘Não preciso de você!’ Nem a cabeça pode dizer aos pés: ‘Não preciso de vocês!’ Ao contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são indispensáveis” (lCo 12.21,22; cf.v.4-6).
[O termo grego para ”dom” aqui é charisma, o mesmo termo que Paulo usa em lCoríntios 12—14  quando fala a respeito de dons espirituais.]

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4. Dons podem variar em intensidade.
Paulo diz que, se alguém tem o dom de profecia, deve usá-lo “na proporção da sua fé” (Rm 12.6), indicando que o dom pode ser mais ou menos intensamente desenvolvido em diferentes indivíduos ou no mesmo indivíduo durante um período de tempo. Essa é a razão pela qual Paulo pode lembrar a Timóteo: ”Não negligencie o dom que lhe foi dado” (lTm 4.14) e pode dizer: “torno a lembrar-lhe que mantenha viva a chama do dom de Deus que está em você” (2Tm 1.6). Era possível Timóteo permitir que seu dom se enfraquecesse, aparentemente pelo pouco uso, e Paulo procura lembrá-lo de reavivar o dom pelo uso para com isso fortalecê-lo. Isso não nos deveria surpreender, pois percebemos que muitos dons aumentam em força e em eficácia à medida que são usados, seja evangelismo, ensino, exortação, administração ou fé.
Textos como os que vimos indicam que os dons espirituais podem variar em intensidade. Se pensarmos em qualquer dom, seja de ensino ou de evangelismo de um lado, ou profecia e curas de outro, devemos perceber que dentro de qualquer congregação provavelmente haverá pessoas que são muito eficazes no uso desse dom, talvez pelo longo uso e experiência, outros que atuam moderadamente nesse dom, e outros que provavelmente têm o dom, mas estão apenas começando a usá-lo. Essa variação em intensidade nos dons espirituais depende de uma combinação da influência divina e humana. A influência divina é a operação soberana do Espírito Santo, que ele “distribui individualmente, a cada um, como quer” (lCo 12.11). A influência humana vem da experiência, treino, sabedoria e capacidade natural no uso de um dom. Geralmente não é possível saber em que proporção as influências divina e humana combinam em determinado momento, nem é realmente necessário saber, pois mesmo as capacidades que pensamos ser naturais procedem de Deus (lCo 4.7) e estão debaixo do seu controle soberano.
Mas isso conduz a uma pergunta interessante: Quanta força uma capacidade deve demonstrar antes de ser chamada dom espiritual? De quanta capacidade para o ensino uma pessoa precisa para se dizer que ela tem o dom do ensino, por exemplo? Ou até que ponto um indivíduo deve ser eficaz na evangelização antes de reconhecermos que ele tem o dom de evangelização? Ou com quanta freqüência alguém teria de ver suas orações por cura serem respondidas antes do reconhecimento de que tem o dom de cura?
A Escritura não responde diretamente a essa pergunta, mas o fato de que Paulo fala desses dons como úteis para a edificação da igreja (lCo 14.12) e o fato de que Pedro igualmente diz que cada pessoa que recebeu um dom deveria lembrar-se de empregá-lo para “servir os outros” (1 Pe 4.10) sugerem que tanto Paulo como Pedro pensaram nos dons como capacidades que eram fortes o suficiente para funcionar em benefício da igreja, seja para a congregação reunida (como em profecia ou ensino), seja para indivíduos na congregação (como prestar ajuda ou exortação). Provavelmente nenhuma linha definida pode ser traçada nesse assunto, mas Paulo nos relembra de que ninguém possui todos os dons nem ninguém fica sem algum dom. Ele é muito claro quanto a isso, e um conjunto de perguntas tem uma resposta “não” em cada uma delas: “São todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres? Têm todos o dom de realizar milagres? Têm todos dons de curar? Falam todos em línguas? Todos interpretam?” (lCo 12.29,30).
O texto grego (com o particípio me antes de cada pergunta) claramente pressupõe a resposta negativa a cada pergunta. Portanto, nem todos são mestres, por exemplo, nem todos possuem dons de cura, nem todos falam em línguas.
Mas embora nem todos tenham o dom de ensino, é verdade que todos os apóstolos “ensinam” em algum sentido da palavra ensinar. Mesmo as pessoas que nunca sonharam ensinar em uma classe de escola dominical vão ler histórias bíblicas para os seus próprios filhos e explicar o significado delas —de fato, Moisés ordenou aos israelitas que fizessem isso com seus filhos (Dt 6.7), explicando-lhes as palavras de Deus à medida que se assentavam em sua casa ou andavam pelo caminho. Assim, por um lado devemos dizer que nem todos têm o dom de ensino. Mas, por outro lado, devemos dizer que há uma capacidade geral relacionada ao dom de ensino que todos os cristãos possuem. Outro modo de expressar isso seria dizer que não há nenhum dom espiritual que todos os crentes tenham, todavia há uma capacidade geral similar a cada dom que todos os cristãos possuem.
Podemos ver isso com muitos dons. Nem todos os cristãos têm o dom de ser evangelistas, mas todos os cristãos têm a capacidade de compartilhar o evangelho com seus vizinhos. Nem todos os cristãos têm dons de cura, mas ainda assim cada cristão pode orar e realmente ora a Deus pela cura de amigos ou parentes que estão doentes.
Podemos até dizer que outros dons, como profecia, não somente variam em intensidade entre os que possuem o dom, mas também encontram um complemento em algumas capacidades gerais que são encontradas na vida de cada cristão. Por exemplo, se entendemos profecia (de acordo com a definição dada no capítulo 30) como “relatar algo que Deus traz à mente”, então é verdade que nem todo mundo experimenta isso como dom, pois nem todos experimentam Deus trazendo coisas espontaneamente à mente com tal clareza e força que a pessoa se sente livre para falar a respeito delas em um grupo de cristãos. Mas provavelmente todo crente teve uma vez ou outra a percepção de que Deus lhe estava trazendo à mente a necessidade de orar por um amigo distante, ou escrever, ou telefonar para dizer uma palavra de encorajamento a alguém distante, e mais tarde verificou que isso era exatamente o que aquela pessoa estava precisando naquele momento. Poucos haveriam de negar que Deus soberanamente lhes trouxe aquela necessidade à mente de modo espontâneo e, embora isso não seja chamado de dom de profecia, é uma capacidade geral de receber uma direção ou orientação especial de Deus que é semelhante ao que acontece no dom de profecia, mas que funciona em um nível mais fraco.
O ponto central dessa discussão toda é simplesmente dizer que os dons espirituais não são tão misteriosos e “coisas do outro mundo” como as pessoas costumam pensar. Muitos deles são intensificações ou exemplos de fenômenos altamente desenvolvidos que muitos cristãos experimentam em sua vida. Outra conclusão importante a ser tirada dessa discussão é que, muito embora tenhamos recebido dons de Deus, somos ainda responsáveis por usá-los eficazmente e desenvolvê-los, para que a igreja possa receber mais benefícios dos dons dos quais Deus permitiu que fôssemos mordomos.
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5. Descobrindo e procurando dons espirituais.
Paulo parece presumir que os crentes saberão quais são os seus dons espirituais. Ele simplesmente diz aos da igreja de Roma para usarem os seus dons espirituais de vários modos: “Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua generosamente; se é exercer liderança, que a exerça com zelo; se é mostrar misericórdia, que o faça com alegria” (Rm 12.6-8). Semelhantemente, Pedro diz a seus leitores como usar seus dons, mas não diz nada a respeito de descobrir quais são eles: “Cada um exerça o dom que recebeu para servir os outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas” (lPe 4.10).
Mas o que acontece se muitos membros na igreja não sabem quais são os dons espirituais que Deus lhes deu? Em tal caso, os líderes da igreja precisam perguntar se estão proporcionando oportunidades suficientes para as variedades de dons serem usados. Embora as listas de dons dadas no NT não esgotem a questão, elas certamente proporcionam um bom ponto de partida para as igrejas perguntarem se ao menos há oportunidade para esses dons serem usados. Se Deus colocou pessoas com certos dons em uma igreja, quando esses dons não são encorajados ou quem sabe não permitidos, elas se sentirão frustradas e não cumprirão os seus ministérios cristãos, e talvez se mudem para outra igreja onde seus dons possam ser usados para o benefício da igreja.
Além da questão de descobrir quais dons uma pessoa tem, existe a questão da busca de dons adicionais. Paulo ordena aos cristãos: ”Entretanto, busquem com dedicação os melhores dons”(lCo 12.3l). Mais adiante, diz: “Sigam o caminho do amor e busquem com dedicação os dons espirituais, principalmente o dom de profecia” (lCo 14.1). Nesse contexto, Paulo define o que quer dizer com “melhores dons”, porque em lCoríntios 14.5 ele repete a palavra que usou em 12.31 para “melhores” (gr. meizõn) quando diz que quem “profetiza é maior do que aquele que fala em línguas, a não ser que as interprete, para que a igreja seja edificada” (lCo 14.5).Aqui os dons “melhores” são aqueles que mais edificam a igreja. Isso está de acordo com a afirmação de Paulo poucos versículos mais adiante, quando diz: “Visto que estão ansiosos por terem dons espirituais, procurem crescer naqueles que trazem a edificação para a igreja” (lCo 14.12). Os dons melhores são os que mais edificam a igreja e que trazem mais beneficio para os outros.
Mas como procurar mais dons espirituais? Primeiro, devemos pedir a Deus por eles. Paulo diz diretamente que “quem fala em uma língua, ore para que a possa interpretar” (lCo 14.13; cf. Tg 1.5, onde Tiago diz às pessoas que elas devem pedir a Deus sabedoria). A seguir, pessoas que procuram dons espirituais adicionais devem apresentar os motivos corretos. Se os dons espirituais são buscados somente para que a pessoa possa ser mais proeminente ou ter mais influência e poder, isso certamente está errado aos olhos de Deus. Essa era a motivação de Simão, o mago, em Atos 8.19, quando ele disse: “Dêem-me também este poder, para que a pessoa sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo” (v. repreensão de Pedro nos v. 21 e 22). É algo temerário querer dons espirituais ou proeminência na igreja somente para a nossa glória, não para a glória de Deus e para o socorro de outros. Portanto, os que procuram dons espirituais devem primeiro perguntar se a si mesmos se os estão procurando por amor a outros e com a preocupação de ser capazes de ministrar às necessidades deles, porque os que possuem grandes dons espirituais mas não têm amor nada representam à vista de Deus (cf. lCo 13.1-3).
Dentro desses parâmetros, é apropriado procurar oportunidades para exercer o dom, exatamente como no caso da pessoa que tenta descobrir seu dom, como explicado anteriormente.
Finalmente, os que estão procurando dons espirituais adicionais devem continuar a usar os dons que já sabem que possuem e ficar contentes se Deus resolve não lhes dar mais dons. O senhor aprovou o servo que fez render dez vezes mais a mina, mas condenou o que a conservou “guardada num pedaço de pano” (Lc 19.16,17,20-23) — certamente mostrando-nos que temos a responsabilidade de usar e tentar aumentar os talentos e habilidades que Deus nos deu como seus mordomos. Devemos equilibrar isso lembrando que os dons espirituais são distribuídos a cada pessoa individualmente pelo Espírito Santo “como ele quer”(lCo 12.11) e que “Deus dispôs cada um dos membros no corpo, segundo a sua vontade” (lCo 12.18). Desse modo, Paulo recorda aos coríntios que, em última análise, a distribuição dos dons é um assunto da soberania divina: é para o bem da igreja e para o nosso bem que nenhum de nós tem todos os dons, e precisamos continuamente depender de outros que possuem dons diferentes dos nossos. Essas considerações devem contentar-nos quando Deus decidir não nos dar os outros dons que procuramos.
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B. Alguns dons cessaram?
No mundo evangélico de hoje há posições diferentes com respeito a esta pergunta: “Todos os dons mencionados no NT são válidos para o uso na igreja hoje?”. Alguns dizem sim. Outros diriam não, e argumentariam que alguns dos dons mais miraculosos (como profecia, línguas e interpretação, e talvez curas e expulsão de demônios) foram dados somente no tempo dos apóstolos, como “sinais” para autenticar a pregação primitiva do evangelho. Eles afirmam primeiramente que esses dons não são mais necessários como sinais hoje e que cessaram no fim da era apostólica, provavelmente no final do século I ou no começo do século II d.C.
Devemos também compreender que há um grande grupo “intermediário” com respeito a esse assunto, um grupo das “principais correntes evangélicas” que não é carismático nem pentecostal de um lado, nem “cessacionista” de outro, mas estão simplesmente indecisos e incertos se essa questão pode ser decidida com informações da Escritura.
[A palavra cessacionista significa alguém que pensa que certos dons espirituais miraculosos cessaram muito tempo atrás, quando os apóstolos morreram e a Escritura tornou-se completa.]
Muitos aspectos desse debate centralizam-se sobre o significado de lCoríntios 13.8-13, onde Paulo diz:
O amor nunca perece; mas as profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o conhecimento passará. Pois em parte conhecemos e em parte profetizamos; quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino. Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido.Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor (lCo 13.8-13).

1. lCoríntios 13.8-13 nos diz quando os dons miraculosos cessarão?
O propósito dessa passagem é mostrar que o amor é superior aos dons como profecia porque os dons passarão, mas o amor nunca passará. Devemos entender “o que é imperfeito” no versículo 10 como incluindo não somente a profecia, mas igualmente outros dons como “línguas” e “conhecimento”, haja vista que estes são mencionados no versículo 8 como coisas que passarão. O ponto-chave é saber o tempo que a palavra “quando” indica no versículo 10: “quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá”. Alguns que sustentam que esses dons cessaram crêem que essa frase se refere ao tempo anterior à época do retorno do Senhor, como o tempo “quando a igreja está madura” ou “quando a Escritura está completa”. Contudo, o significado do versículo 12 parece exigir que essa frase se refira ao tempo do retorno do Senhor. A frase “veremos face a face” é usada diversas vezes no AT para se referir a ver Deus pessoalmente’ — não plena ou exaustivamente, porque nenhuma criatura finita pode fazer isso, mas ainda assim de modo pessoal e verdadeiro. Assim, quando Paulo diz “veremos face a face”, ele claramente quer dizer “veremos Deus face a face”. De fato, essa será a maior bênção do céu e a nossa maior alegria por toda a eternidade (Ap 22.4: “Verão a sua face, e o seu nome estará em suas testas”). Esse evento poderá acontecer somente quando o Senhor retornar. Além disso, a segunda metade do versículo 12 diz: “Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido”. Paulo não espera possuir um conhecimento infinito, mas sim, quando o Senhor retornar, ele espera ser liberto dos falsos conceitos e das incapacidades de entender (especialmente de entender Deus e sua obra) que são parte desta vida presente. O seu conhecimento vai recordar o conhecimento atual que Deus tem dele porque não conterá nenhuma impressão falsa e não será limitado ao que é capaz de ser percebido neste presente tempo. Mas tal conhecimento ocorrerá somente quando o Senhor retornar.
Esse é o tempo ao qual o versículo 10 se refere quando diz “quando, porém, vier o que éperfeito, o que é imperfeito desaparecerá”. Quando Cristo retornar, ”o que é imperfeito”, ou modo parcial de adquirir conhecimento a respeito de Deus, passará porque a espécie de conhecimento que teremos na consumação final de todas as coisas fará com que os dons imperfeitos sejam obsoletos. Isso significa, contudo, que até que Cristo retorne tais dons continuarão a existir e serão úteis ao longo de toda a era da igreja, incluindo hoje, e até o dia da segunda vinda de Cristo.
Além disso, essa interpretação parece encaixar-se melhor com o propósito global da passagem. Paulo está tentando enfatizar a grandeza do amor e firmar que o “amor nunca perece (lCo 13.8). Para provar esse ponto, ele argumenta que o amor avançará para além do tempo em que o Senhor retornar, diferentemente dos atuais dons espirituais. Isso se torna um argumento convincente: o amor é tão fundamental para os planos de Deus para o universo que ele durará além da transição desta presente era para a era por vir no retorno de Cristo — ele continuará por toda a eternidade.
Finalmente, uma afirmação mais geral de Paulo a respeito do propósito dos dons espirituais na era do NT dá suporte a essa interpretação. Em lCoríntios 1.7 Paulo liga a posse dos dons espirituais (gr., charismata) à atividade de esperar pelo retorno do Senhor: “De modo que não lhes falta nenhum dom espiritual, enquanto vocês esperam que o nosso Senhor Jesus Cristo seja revelado”. Isso sugere que Paulo viu os dons como provisão temporária dada para equipar os crentes para o ministério até que o Senhor retorne. Assim, esse versículo proporciona um paralelo próximo ao pensamento de lCoríntios 13.8-13, onde a profecia e o conhecimento (e sem dúvida línguas) são vistos, semelhantemente, como úteis até o retorno de Cristo, mas desnecessários daquele período em diante.
lCoríntios 13.10, portanto, refere-se ao tempo do retorno de Cristo e afirma que esses dons espirituais durarão entre os crentes até aquele tempo. Isso significa que nós temos uma afirmação bíblica clara de que Paulo esperava que esses dons continuassem por toda a era eclesiástica e funcionassem para o benefício da igreja até o retorno de Cristo.
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2. A continuação da profecia hoje desafiaria a suficiência da Escritura?
Alguns que assumem a posição “cessacionista” argumentam que permitir “palavras de Deus” provindo de elocuções proféticas contínuas seria, de fato, acrescentar algo à Escritura ou competir com a Escritura. Em ambos os casos, a suficiência da Escritura em si mesma seria desafiada, e, na prática, sua autoridade singular em nossa vida ficaria comprometida. Contudo, tenho argumentado exaustivamente em outras obras que a profecia congregacional ordinária nas igrejas do NT não possuía a mesma autoridade que a Escritura. Ela não era proferida em vocábulos que eram as verdadeiras palavras de Deus, antes era falada em palavras meramente humanas. E porque ela tem essa autoridade menor, não há razão alguma para pensar que ela não continuará na igreja até que Cristo retorne. Ela não ameaça nem compete com a Escritura em autoridade, mas está sujeita à Escritura, assim como ao julgamento maduro da congregação.
Outra objeção é por vezes levantada a esta altura. Alguns vão argumentar que, mesmo que quem usa o dom de profecia hoje diga que ela não é igual à Escritura em autoridade, ela de fato funciona na vida deles competindo com as Escrituras ou até para substituindo-as na orientação com respeito à vontade de Deus. Assim, a profecia hoje, segundo dizem, desafia a doutrina da suficiência da Escritura para a orientação em nossa vida.
Aqui deve-se admitir que muitos erros têm sido cometidos na história da igreja. Mas nessa discussão a questão deve ser: Os abusos são necessários para o funcionamento do dom de profecia? Se tivermos de argumentar que os erros e abusos de um dom invalidam o dom em si mesmo, então teremos de rejeitar o ensino da Bíblia (pois muitos mestres de Bíblia têm ensinado erros e iniciado seitas) bem como a administração da igreja (pois muitos líderes de igreja têm contribuído para o desvio de pessoas), e assim por diante. O abuso de um dom não significa que devamos proibir o uso devido do dom, a menos que possa ser demonstrado que é impossível haver um uso adequado dele — que todo uso tem de ser um abuso.

3. Os dons miraculosos somente acompanharam o surgimento da nova Escritura? Outra objeção é dizer que os dons miraculosos acompanharam o surgimento da Escritura, e, já que não há nenhuma nova Escritura concedida em nossos dias, não devemos esperar novos milagres hoje.
Em resposta a essa tese deve ser dito que esse não é o único nem mesmo o maior propósito dos dons miraculosos. Os milagres têm outros propósitos na Escritura: 1) autenticam a mensagem do evangelho por toda a era da igreja; 2) prestam ajuda aos que estão necessitados, e, com isso, demonstram a misericórdia e o amor de Deus; 3) equipam as pessoas para o ministério; e 4) glorificam a Deus.
Devemos também observar que nem todos os milagres acompanham a concessão de uma Escritura adicional. Por exemplo, tanto o ministério de Elias como o de Eliseu foram marcados por diversos milagres no AT, mas eles não escreveram nenhum livro nem nenhuma seção da Bíblia. No NT, houve muitas ocorrências de milagres que não foram acompanhados pela concessão da Escritura. No livro de Atos, tanto Estevão como Filipe operaram milagres, mas não escreveram nenhuma Escritura. Houve profetas que não escreveram nenhuma Escritura em Cesaréia (At 21.4) e Tiro (At 21.9-11), em Roma (Rm 12.6) e em Tessalônica (lTs 5.20,21), em Éfeso (Ef :1 4.11) e nas comunidades às quais lJoão foi escrita (lJo 4.1-6). Houve aparentemente muitos milagres nas igrejas da Galácia (Gl 3.5). E Tiago espera que a cura ocorra pelas mãos dos presbíteros em todas as igrejas às quais escreve (v. Tg 5.14-16).

4. É perigoso uma igreja admitir a possibilidade de dons miraculosos hoje?
A objeção final proposta pela posição cessacionista é dizer que uma igreja que enfatiza o uso dos dons miraculosos está em perigo de cair em desequilíbrio e provavelmente negligenciara outras coisas importantes como evangelização, sã doutrina e a pureza moral de vida.
Dizer que o uso de dons miraculosos é “perigoso” não é em si mesma uma crítica adequada, porque há coisas corretas que são perigosas, ao menos em algum sentido. A obra missionária é perigosa. Dirigir um carro é perigoso. Se definirmos perigoso como significando “algo que pode dar errado”, então podemos criticar qualquer coisa que alguém possa fazer como “perigosa”, e a crítica assume múltiplos propósitos quando não há nenhum abuso específico a apontar. Uma abordagem melhor com respeito aos dons espirituais seria perguntar: “Eles estão sendo usados de acordo com a Escritura?” e “Os passos dados para se guardar contra os perigos do abuso são adequados?”.
Naturalmente é verdade que igrejas podem tornar-se desequilibradas, e algumas de fato se tornaram. Mas nem todas são assim, nem precisam ser. Ademais, visto que esse argumento é baseado em resultados reais da vida de uma igreja, também é apropriado perguntar: “Que igrejas no mundo têm hoje em dia a evangelização mais eficaz? Quais apresentam maior contribuição sacrificial entre seus membros? Quais, de fato, dão a maior ênfase em pureza de vida? Quais têm o amor mais profundo pelo Senhor e por sua Palavra?”. Embora seja difícil responder a essas perguntas claramente, não creio que possamos dizer com justiça que as igrejas dos movimentos carismático e pentecostal são mais fracas nessas áreas que outras igrejas evangélicas. De fato, em alguns casos elas podem ser até mais fortes nessas áreas. A questão é que qualquer argumento que diga que as igrejas que enfatizam os dons miraculosos se tornarão desequilibradas simplesmente não é provado na prática.

5. Nota final: cessacionistas e carismáticos precisam uns dos outros.
Finalmente, pode-se argumentar que os do lado carismático e pentecostal e os do lado cessacionista (especialmente os reformados e os cristãos dispensacionalistas) realmente precisam uns dos outros e fariam bem se desenvolvessem maior apreciação mútua. Os primeiros tendem a ter mais experiência prática no uso dos dons espirituais e na vitalidade na adoração, áreas em que os cessacionistas poderão se beneficiar mais, caso estiverem desejosos de aprender. Por outro lado, os reformados e grupos dispensacionalistas tradicionalmente são muito fortes no entendimento da sã doutrina, na profundidade e no entendimento preciso dos ensinos da Escritura. Os grupos carismático e pentecostal poderão aprender muito com eles, se estiverem desejosos disso. Mas certamente não é útil para a igreja como um todo, de ambos os lados, crer que eles não possam aprender nada uns com os outros ou que eles não possam obter nenhum benefício da comunhão uns com os outros.

Teologia Sistemática.

Wayne Grudem.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013









A natureza da igreja

Como reconhecer uma verdadeira igreja?
Quais são os propósitos da igreja?
O que torna uma igreja mais ou menos agradável a Deus?


EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA

A natureza da igreja
A Definição: A igreja é a comunidade de todos os verdadeiros crentes em todas as épocas. Essa definição entende que a igreja seja composta de todos os que são verdadeiramente salvos. Paulo diz que “Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Ef 5.25). Aqui a palavra “igreja” aplica-se a todos aqueles por quem Cristo morreu a fim de redimi-los, todos os que são salvos pela morte de Cristo. Mas ela deve incluir todos os verdadeiros crentes de todas as épocas, tanto do período do NT como do período do AT. É tão grande o plano de Deus para a igreja que ele exaltou Cristo a uma posição elevada de autoridade por amor à sua igreja: “Deus colocou todas as coisas debaixo de seus pés e o designou cabeça de todas as coisas para a igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que enche todas as coisas, em toda e qualquer circunstância” (Ef 1.22,23).
O próprio Jesus Cristo edifica sua igreja chamando para si o seu povo. Ele prometeu: ”edificarei a minha igreja” (Mt 16.18). Mas esse processo pelo qual Cristo edifica a igreja é apenas a continuação do padrão estabelecido por Deus no AT, quando ele chamou pessoas para si mesmo para serem uma assembléia adoradora perante ele. Há diversas indicações no AT de que Deus viu seu povo como “igreja”, o povo reunido com o propósito de adorá-lo. Quando Moises diz ao povo que o Senhor lhe havia dito: “Reúna o povo diante de mim para ouvir as minhas palavras, a fim de que aprendam a me temer enquanto viverem sobre a terra, e as ensinem a seu filhos” (Dt 4.10), a LXX traduz a palavra “reunir” (heb. q ¯ ahal) usando o termo grego ekkl¯ esiaz ¯o, que significa “convocar uma assembléia”, um verbo que é cognato do substantivo grego do NT ekkl¯ esia, “igreja”
Não é de surpreender que os autores do NT falem do povo de Israel do AT como “igreja” (ekklēsia). Por exemplo, Estêvão fala do povo de Israel no deserto como “a igreja (ekklēsia) no desertor (At 7.38, tradução do autor). Da mesma forma o autor de Hebreus cita Cristo referindo-se a ele como quem haveria de louvar a Deus no meio da grande assembléia do povo de Deus no céu: “Proclamarei o teu nome a meus irmãos; na igreja (ekklēsia) te louvarei” (Hb 2.12, tradução do autor; o escritor de Hebreus está citando SL 22.22).
Portanto, o autor de Hebreus entende que os cristãos do tempo presente que constituem a igreja sobre a terra estão cercados por uma grande ”nuvem de testemunhas” (Hb 12.1) que abrange retroativamente as épocas do AT, incluindo Abel, Enoque, Noé, Abraão, Sara, Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas (Hb 11.4-32). Todas essas “testemunhas” rodeiam o povo de Deus do tempo presente, e parece apropriado pensar que elas, juntamente com o povo de Deus do NT, sejam a grande “assembléia” espiritual de Deus, ou seja, a “igreja”   Portanto, muito embora haja certamente novos privilégios e novas bênçãos conferidas ao povo de Deus no NT, ambos os usos do termo igreja na Escritura e o fato de que por meio de toda a Escritura Deus sempre chamou seu povo para reunir-se para a adoração do seu nome indicam que é correto entender que a igreja é constituída de todo o povo de Deus de todas as épocas, tanto dos crentes do AT como do NT.

2. A igreja é invisível, todavia visível. Em sua verdadeira realidade espiritual como a comunhão de todos os crentes genuínos, a igreja é invisível. Isso porque não podemos ver a condição espiritual do coração das pessoas. Podemos ver exteriormente os que freqüentam a igreja e observar evidências exteriores de mudanças espirituais interiores, mas realmente não podemos olhar para o coração das pessoas e ver o estado espiritual delas — somente Deus pode fazer isso. É por isso que Paulo diz: “O Senhor conhece quem lhe pertence” (2Tm 2.19). Em nossas igrejas e em nossa vizinhança, somente Deus sabe com certeza (sem margem de erro) quem são os verdadeiramente crentes. Falando da igreja como invisível, o autor de Hebreus refere-se “à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus” (Hb 12.23) e diz que os cristãos do tempo presente se juntam a essa assembléia em adoração.
Podemos dar a seguinte definição: A igreja invisível é a igreja como Deus a vê. Tanto Martinho Lutero como João Calvino foram enfáticos em afirmar esse aspecto invisível da igreja contra o ensino de que a Igreja Católica Romana era a única organização visível que descendia dos apóstolos em linhagem ininterrupta de sucessão (por meio dos bispos da igreja). A Igreja Católica Romana argumentava que somente em sua organização visível poderíamos encontrar a verdadeira igreja, a única igreja verdadeira. Mesmo hoje tal pensamento é sustentado pela Igreja Católica Romana. Tanto Lutero como Calvino discordaram dessa idéia, asseverando que a Igreja Católica Romana possuía uma forma exterior, uma organização, mas que isso era apenas uma casca. Calvino argumentou que exatamente como Caifás (o sumo sacerdote do tempo de Jesus) descendia de Arão, mas não era um verdadeiro sacerdote, assim os bispos católicos romanos “descendiam” dos apóstolos segundo a linhagem de sucessão, mas não eram verdadeiros bispos da igreja de Cristo, pois haviam se desviado da verdadeira pregação do evangelho. Logo, sua organização visível não era a verdadeira igreja.
A verdadeira igreja de Cristo, no entanto, certamente também possui um aspecto visível. Podemos usar a seguinte definição: A igreja visível é a igreja como os cristãos a vêem. Nesse sentido, a igreja visível inclui todos os que professam a fé em Cristo e dão evidência dessa fé em sua vida.
Nessa definição, não estamos dizendo que a igreja visível é a igreja que qualquer pessoa no mundo (como um descrente ou alguém que sustenta ensinos heréticos) pode ver, mas estamos falando da igreja como ela é percebida por aqueles que são crentes genuínos e que têm um entendimento da diferença entre crentes e descrentes.
A igreja visível espalhada por todo o mundo sempre incluirá alguns descrentes, e as congregações individuais normalmente incluirão alguns descrentes, porque não podemos ver o coração como Deus vê. Paulo fala de Himeneu e Fileto: “O ensino deles alastra-se como câncer [...] Estes se desviaram da verdade li.] a alguns pervertem a fé” (2Tm 2.17,18). Mas ele está confiante de que “o Senhor conhece quem lhe pertence” (2Tm 2.19). Semelhantemente, Paulo adverte os presbíteros de Éfeso: “Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos” (At 20.29,30). O próprio Jesus advertiu: “Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos” (Mt 7.15,16). Percebendo essa distinção entre a igreja invisível e a visível, Agostinho disse da igreja visível: “Muitas são as ovelhas do lado de fora, muitos os lobos do lado de dentro”.
Quando reconhecemos que há descrentes na igreja visível, há o perigo de nos tornarmos demasiadamente desconfiados e de começarmos a duvidar da salvação de muitos crentes verdadeiros. Calvino advertiu contra esse perigo dizendo que devemos fazer um “juízo de afeição” pelo qual reconhecemos como membros da igreja todos os que “pela confissão de fé, e pelo exemplo de vida, e pela participação dos sacramentos, conosco professam o mesmo Deus e Cristo”. Devemos tentar não excluir pessoas da comunhão da igreja até que elas por pecado público tragam disciplina sobre si mesmas. E óbvio, contudo, que a igreja não deveria tolerar em seu rol de membros “descrentes confessos” que, por profissão ou por vida, claramente se declaram fora da verdadeira igreja.



3. A igreja é local e universal. No NT a palavra igreja pode ser aplicada a um grupo de crentes em qualquer nível, desde a reunião de um grupo pequeno em uma casa particular até um grupo de verdadeiros crentes na igreja universal. A comunidade que se reunia nas casas é chamada “igreja” em Romanos 16.5 e lCoríntios 16.19 (“Áqüila e Priscila 1 [...] e também a igreja que se reúne na casa deles”). A igreja que se encontra em uma cidade também é chamada “igreja” (1 Co. 1.2; 2Co 1.1; lTs 1.l).A igreja de uma região é chamada ”igreja” em Atos 9.31:”A igreja passava. por um período de paz em toda a Judéia, Galiléia e Sarnaria”. Finalmente, a igreja por todo o mundo pode ser chamada “igreja”. Paulo diz: “Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Ef 5.25), e disse ainda: “Na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; e em terceiro lugar, mestres...” (lCo 12.28). Neste versículo, a menção de “apóstolos”, que não foram dados à igreja individual, garante que a referência seja à igreja universal.
Podemos concluir que o grupo do povo de Deus considerado em qualquer nível desde a igreja local até a universal pode corretamente ser chamado “igreja”. Não devemos cometer o erro de dizer que somente a reunião de pessoas em casas expresse a verdadeira natureza da igreja, ou que somente igreja no nível de uma cidade possa ser corretamente chamada “igreja”,’ ou que somente a igreja universal possa ser corretamente chamada “igreja”. Ao contrário, a comunidade do povo de Deus considerada em qualquer nível pode corretamente ser chamada igreja.

4. Metáforas para a igreja. A fim de nos ajudar no entendimento da natureza da igreja, a Escritura usa uma variedade de imagens para nos descrever a que a igreja se assemelha. Há diversas imagens relacionadas com a família — por exemplo, Paulo vê a igreja como a família maior: “Não repreenda asperamente o homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza” (lTm 5.1,2). Deus é o nosso Pai celestial (Ef 3.14), e nós somos seus filhos e filhas, pois Deus nos diz: “Lhes serei Pai, e vocês serão meus filhos e minhas filhas, diz o Senhor todo-poderoso” (2Co 6.18). Somos, portanto, irmãos e irmãs uns dos outros na família de Deus (Mt 12.49,50; lJo 3.14-18). Uma metáfora de família um tanto diferente é vista quando Paulo se refere à igreja como a noiva de Cristo. Ele diz que o relacionamento entre marido e esposa refere-se “a Cristo e à igreja” (Ef 5.32); diz também que ele produziu o compromisso de noivado entre Cristo e a igreja em Corinto e que isso relembra compromisso entre a noiva e aquele que vai ser seu marido: “Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a ele como uma virgem pura” (2Co 11.2) — aqui Paulo olha com expectativa para o tempo do retorno de Cristo como o tempo em que a igreja será apresentada a ele como sua noiva.
Em outras metáforas, a Escritura compara a igreja aos ramos de uma videira (Jo 15.5), a uma oliveira (Rm 11.17-24),a uma lavoura (lCo 3.6-9),a um edifício (lCo 3.9) e a uma colheita (Mt 13.1-30; lo 4.35). A igreja também é vista como um novo templo, não construído com pedras literais, mas construído com pessoas cristãs que são pedras vivas” (1 Pe 2.5), edificadas sobre a pedra fundamental” que é Cristo Jesus (lPe 2.4-8). Todavia, a igreja não é somente um novo templo para a adoração de Deus; é também um novo corpo de sacerdotes, um “sacerdócio santo” que pode oferecer”sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus”(lPe 2.5). Somos também vistos como casa de Deus (Hb 3.6), sendo o próprio Jesus Cristo visto como o “construtor” da casa (Hb 3.3). A igreja também é vista como “coluna e fundamento da verdade” (lTm 3.15).
Finalmente, outra metáfora familiar vê a igreja como o corpo de Cristo (lCo 12.12-27). Devemos reconhecer que Paulo de fato usa duas metáforas diferentes do corpo humano quando fala da igreja. Aqui em 1 Coríntios 12 o corpo inteiro é tomado como metáfora da igreja, porque Paulo fala do “ouvido”, do “olho” e do “olfato” (1 Co 12.16,17). Nessa metáfora, Cristo não é visto como a cabeça ligada ao corpo, porque os membros individuais são em si mesmos as partes individuais da cabeça. Cristo é nessa metáfora o Senhor que está “fora” desse corpo que representa a igreja e é a quem a igreja serve e adora.
Mas em Efésios 1.22,23; 4.15,16 e em Colossenses 2.19 Paulo usa uma metáfora diferente de corpo para referir-se à igreja. Nessas passagens, Paulo diz que Cristo é o cabeça e a igreja é como o restante do corpo, distinto da cabeça: “Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função” (Ef 4.15,16). Não devemos confundir essas duas metáforas, a de lCoríntios 12 e a de Efésios 4, mas mantê-las distintas.
A ampla gama de metáforas usada para a igreja no NT deveria nos lembrar de não enfatizar exclusivamente uma delas. A ênfase indevida em uma metáfora com a exclusão de outras certamente resultará em uma perspectiva desequilibrada da igreja. Além disso, cada uma das metáforas usadas para a igreja pode nos ajudar a apreciar mais as riquezas do privilégio que Deus nos deu incorporando-nos na igreja. O fato de que a igreja é como uma família deveria aumentar o nosso amor e comunhão uns com os outros. O pensamento de que a igreja é igual à noiva de Cristo deveria estimular-nos a lutar pela pureza e santidade maiores e também ao amor e submissão maiores a Cristo. A imagem da igreja como ramos da videira deveria levar-nos ao descanso mais pleno em Cristo. Essas são apenas algumas das muitas aplicações que poderiam ser feitas da rica diversidade de metáforas para a igreja usada na Escritura.

A igreja e Israel. Entre os protestantes evangélicos há diferentes perspectivas sobre a questão do relacionamento entre Israel e a igreja. Uma perspectiva é a dispensacionalista. De acordo com ela, Deus tem dois planos distintos para dois grupos diferentes de pessoas que redimiu. Por um lado, os propósitos e as promessas para Israel são bênçãos terrenas, e serão cumpridas nesta terra em algum tempo no futuro. Por outro lado, os propósitos e as promessas para a igreja são bênçãos celestiais, e essas promessas serão cumpridas no céu. Essa distinção entre os dois grupos diferentes que Deus salva será vista especialmente no milênio, pois naquele tempo Israel reinará sobre a terra como o povo de Deus e desfrutará o cumprimento das promessas do AT, mas a igreja a essa altura já terá sido levada para o céu no tempo do retorno secreto de Cristo para os santos (“o arrebatamento”). Nessa perspectiva, a igreja não começou antes do Pentecoste (At 2), e não seria correto pensar nos crentes do AT junto com os crentes do NT constituindo uma igreja.
Diversos líderes entre os dispensacionalistas mais recentes têm modificado muitos desses pontos, referindo-se à sua estrutura teológica como “dispensacionalismo progressivo”. Eles não vêem a igreja como um parêntese no plano de Deus, mas como o primeiro passo em direção ao estabelecimento do Reino de Deus. Há assim um propósito único para Israel e a igreja — o estabelecimento do Reino de Deus — de que ambos, Israel e a igreja, compartilham. Além disso, o dispensacionalismo progressivo não veria distinção alguma entre Israel e a igreja no futuro estado eterno, pois todos serão parte do mesmo povo.
Contudo, há ainda uma diferença entre os dispensacionalistas progressivos e o restante dos evangélicos sobre um ponto: eles diriam que as profecias do AT concernentes a Israel ainda serão cumpridas no milênio pelo povo étnico judeu que crerá em Cristo e que viverá na terra de Israel como “nação-modelo” para a qual todas as nações olhariam e com a qual todas aprenderiam. Portanto, eles não diriam que a igreja é o “novo Israel” ou que todas as profecias do AT a respeito de Israel serão cumpridas na igreja, pois essas profecias ainda serão cumpridas no Israel étnico.
A posição assumida neste livro difere muito das posições dispensacionalistas tradicionais. Contudo, deve ser dito aqui que as questões a respeito do modo exato em que as profecias bíblicas a respeito do futuro serão cumpridas são por natureza difíceis de decidir com segurança, e é sábio ter algumas hesitações em nossas conclusões sobre o assunto. Com isso em mente, pode ser dito o que se segue.
Tanto teólogos protestantes como católicos que estão fora do círculo dispensacionalista têm dito que a igreja inclui tanto crentes do AT como do NT em uma igreja ou um corpo de Cristo. Devemos observar primeiro os muitos versículos do NT que entendem que a igreja seja o “novo Israel” ou o novo “povo de Deus”. O fato de que “Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Ef 5.25) sugere isso. Ademais, esta era atual da igreja, que tem trazido a salvação a muitos milhões de cristãos, não é uma interrupção ou um parêntese nos planos de Deus, mas a continuação do seu plano expresso por todo o AT chamando pessoas para si. Paulo diz: “Não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é meramente exterior e física. Não! Judeu é quem o é interiormente, e circuncisão é a operada no coração, pelo Espírito, e não pela Lei escrita” (Rm 2.28,29). Paulo reconhece que, embora haja um sentido natural ou literal no qual os que descenderam fisicamente de Abraão são chamados judeus, há também um sentido mais profundo ou espiritual no qual o “judeu verdadeiro” é aquele que é interiormente um crente e cujo coração foi purificado por Deus.
Paulo diz que Abraão não deve somente ser considerado o pai do povo judeu em sentido físico. Ele é também no sentido mais profundo e mais verdadeiro “o pai de todos os que crêem, sem terem sido circuncidados [...] e é igualmente o pai dos circuncisos que não somente são circuncisos, mas também andam nos passos da fé que teve nosso pai Abraão antes de passar pela circuncisão” (Rm 4.11,12; cf. v. 16,18). Portanto, Paulo pode dizer: “Não pensemos que a palavra de Deus falhou. Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel. Nem por serem descendentes de Abraão passaram todos a ser filhos de Abraão. Ao contrário: ‘Por meio de Isaque a sua descendência será considerada’. Isto é, não são os filhos naturais que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são considerados descendência de Abraão” (Rm 9.6-8). Paulo aqui sugere que os verdadeiros filhos de Abraão — “Israel” no sentido mais verdadeiro não é a nação de Israel por ascendência física de Abraão, mas os que creram em Cristo.
Longe de pensar na igreja como grupo separado do povo judeu, Paulo escreve aos crentes gentios de Éfeso dizendo-lhes que anteriormente eles estavam “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, sendo estrangeiros quanto às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef2.12),mas que agora eles “foram aproximados mediante o sangue de Cristo” (Ef 2.13).E quando os gentios foram trazidos à igreja, judeus e gentios foram unidos em um só corpo. Paulo diz que Deus “destruiu a barreira, o muro de inimizade, anulando em seu corpo a Lei dos mandamentos expressa em ordenanças. O objetivo dele era criar em si mesmo, dos dois, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliar com Deus os dois em um corpo, por meio da cruz, pela qual ele destruiu a inimizade” (Ef 2.14-16). Portanto, Paulo pode dizer que os gentios são “concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular”(Ef 2.19,20). Com essa consciência ampla do pano de fundo do AT para a igreja do NT, Paulo pode ainda dizer que “os gentios são co-herdeiros com Israel, membros do mesmo corpo, e co-participantes da promessa em Cristo Jesus” (Ef 3.6). A passagem toda fala fortemente da unidade de crentes judeus e gentios no corpo em Cristo e não dá indicação alguma de qualquer plano distintivo para a salvação do povo judeu independentemente do corpo de Cristo, a igreja. A igreja incorpora em si mesma todo o verdadeiro povo de Deus, e quase todos os títulos usados para o povo de Deus no AT são em um lugar ou outro aplicados à igreja do NT. Esses textos, juntamente com muitos outros, nos dão a segurança de que a igreja se tornou agora o verdadeiro Israel de Deus e vai receber todas as bênçãos prometidas a Israel no AT.

As “marcas” da igreja (características distintivas)

Há igrejas verdadeiras e igrejas falsas. O que realmente torna um grupo de pessoas uma igreja? O que é necessário para haver uma igreja? Será que um grupo de pessoas que alegam ser cristãs pode tornar-se tão diferente do que uma igreja deve ser que ele não mais possa ser chamado igreja?
Embora nos primeiros séculos da igreja cristã houvesse pouca controvérsia a respeito do que seria uma igreja verdadeira, com a Reforma uma questão crucial surgiu: Como podemos reconhecer uma igreja verdadeira? A Igreja Católica Romana é uma igreja verdadeira ou não? Para responder a essa pergunta, as pessoas tiveram de decidir quais eram as “marcas” de uma igreja verdadeira, as características distintas que nos levam a reconhecê-la como igreja verdadeira.
A Escritura certamente fala de igrejas falsas. Paulo fala dos templos pagãos em Corinto: “Quero dizer que o que os pagãos sacrificam é oferecido aos demônios e não a Deus” (lCo 10.20). Ele diz aos coríntios: “Vocês sabem que, quando eram pagãos, de uma forma ou de outra eram fortemente atraídos e levados para os ídolos mudos” (lCo 12.2).Esses templos pagãos eram certamente igrejas ou assembléias religiosas falsas. Ademais, a Escritura pode falar de uma assembléia religiosa que é realmente uma “sinagoga de Satanás” (Ap 2.9; 3.9). Aqui o Senhor ressuscitado parece estar se referindo a assembléias judaicas nas quais as pessoas alegavam ser israelitas, mas não eram verdadeiros israelitas que possuíam a fé salvadora. Suas assembléias religiosas não eram assembléias do povo de Cristo nessa época, mas dos que ainda pertenciam ao reino das trevas, o reino de Satanás. Isso certamente também seria uma igreja falsa.
Em grande medida, havia concordância entre Lutero e Calvino sobre essa questão da constituição da verdadeira igreja.A afirmação de fé luterana, chamada Confissão de Augsburgo (1530), definiu a igreja como “a congregação de todos os crentes, entre os quais o evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho” (Art. VII). Semelhantemente, João Calvino disse: “Pois, onde quer que vemos a Palavra de Deus ser sinceramente pregada e ouvida, onde [vemos] serem os sacramentos administrados segundo a instituição de Cristo, aí, de modo nenhum se há de contestar, está uma igreja de Deus”. Ainda que haja ligeiras diferenças nessas confissões, o entendimento que eles tiveram das marcas distintivas de uma verdadeira igreja é muito semelhante. Em contraste com a visão de Lutero e de Calvino com respeito às marcas da igreja, a posição da Igreja Católica Romana tem sido que a igreja visível, que descendeu de Pedro e dos apóstolos, é a verdadeira igreja.
Parece apropriado considerar a visão de Lutero e Calvino sobre as marcas da verdadeira igreja como correta ainda hoje. A primeira marca que eles observaram foi a pregação correta da Palavra. Certamente, se a Palavra de Deus não está sendo pregada, mas simplesmente as falsas doutrinas ou as doutrinas humanas, então não há verdadeira igreja. Em alguns casos, podemos ter dificuldade em determinar exatamente quantas doutrinas errôneas podem ser toleradas antes de uma igreja deixar de ser considerada uma verdadeira igreja, mas há casos muito claros em que podemos dizer que uma igreja verdadeira não existe. Por exemplo, a Igreja de Jesus Cristo            dos Santos dos Últimos Dias (mórmon) não sustenta qualquer doutrina fundamental sobre a salvação, sobre a pessoa de Deus ou sobre a pessoa e obra de Jesus. Ela é claramente uma igreja falsa. Semelhantemente, as Testemunhas de Jeová ensinam a salvação pelas obras, não somente pela confiança em Cristo. Isso é um desvio de uma doutrina fundamental, porque, se as pessoas crêem nos ensinos desse grupo, elas simplesmente não serão salvas. Assim, as Testemunhas de Jeová também devem ser consideradas uma igreja falsa. Quando a pregação de uma igreja esconde de seus membros a mensagem do evangelho de salvação somente pela fé, de modo que a mensagem do evangelho não é claramente proclamada e não vem sendo proclamada há algum tempo, esse grupo específico não é realmente uma igreja.
A segunda marca da igreja, a administração correta dos sacramentos (batismo e ceia do Senhor), foi provavelmente afirmada em oposição ao ensino da Igreja Católica Romana de que a graça salvadora vem por meio dos sacramentos e, portanto, os sacramentos tornaram-se “obras” pelas quais nós temos mérito em nossa salvação. Desse modo, a Igreja Católica Romana estava insistindo no pagamento antes que no ensino da fé como o único meio de obter salvação, obscurecendo assim o evangelho. A necessidade de proteger a pureza do evangelho é uma razão para considerar o uso correto dos sacramentos (ou “ordenanças”, como são chamados pelos batistas) como a marca de uma verdadeira igreja.
Mas existe a segunda razão para incluir os sacramentos (ou ordenanças) como marca da igreja. Uma vez que uma organização comece a praticar o batismo e a ceia do Senhor, ela demonstra ser uma organização que continua essas práticas e está tentando funcionar como uma igreja. (Na sociedade moderna, uma organização que comece a se reunir aos domingos pela manhã para a adoração, a oração e para ensinar a Bíblia estará demonstrando claramente que está tentando funcionar como uma igreja.)
Uma terceira razão para incluir o uso correto dos sacramentos (ou ordenanças) é que o batismo e a ceia do Senhor servem como “controle do rol de membros” da igreja. O batismo é o meio de admissão de pessoas em uma igreja, e a ceia do Senhor é o meio de permitir que pessoas dêem um sinal de sua permanência no rol de membros da igreja — isso quer dizer que a igreja considera os que recebem o batismo e a ceia do Senhor como pessoas salvas. Portanto, essas atividades indicam o que uma igreja pensa a respeito da salvação, e elas são devidamente listadas como uma marca da igreja também hoje. Por contraste, os grupos que não administram o batismo e a ceia do Senhor indicam que não pretendem funcionar como uma igreja. Alguém pode permanecer em uma esquina com uma pequena multidão, e haver uma verdadeira pregação, com pessoas ouvindo a Palavra, mas o povo reunido não seria uma igreja. Mesmo um estudo bíblico feito num lar pode ter verdadeiro ensino e pessoas ouvindo a Palavra sem tornar-se uma igreja. Mas se um estudo bíblico em um local começa a batizar os recém-convertidos e eles passam regular-mente a participar da ceia do Senhor, tais atitudes demonstram a intenção de funcionar como uma igreja, portanto seria difícil não considerar esse grupo uma igreja em si mesma.

 Igrejas verdadeiras e falsas hoje. Em razão da questão colocada durante a Reforma, o que dizer a respeito da Igreja Católica Romana hoje? É uma igreja verdadeira? Aqui parece que não podemos simplesmente tomar uma decisão com respeito a ela como um todo porque está hoje muito diversificada. Algumas paróquias católicas certamente carecem de ambas as marcas —há pouca ou nenhuma pregação verdadeira da Palavra, e a mensagem de salvação do evangelho somente pela fé em Cristo não é conhecida ou recebida pelas pessoas. A participação nos sacramentos é vista como uma “obra” que pode alcançar mérito com Deus. Tal grupo de pessoas não é uma verdadeira igreja cristã. Em contrapartida, há atualmente muitas paróquias católicas em várias partes do mundo nas quais o sacerdote local tem conhecimento salvador genuíno de Cristo e um relacionamento vital e pessoal com Cristo em oração e estudo da Bíblia. Suas homilias e o ensino particular da Bíblia colocam muita ênfase na fé pessoal e na necessidade de leitura individual da Bíblia e de oração. Seu ensino sobre os sacramentos enfatiza os aspectos simbólicos e comemorativos em vez de tratá-los como atos que ocasionam a infusão da graça salvadora. Em tal caso, embora devamos dizer que ainda temos profundas diferenças com o ensino católico em relação a algumas doutrinas, entretanto parece que tal igreja se aproximaria a tal ponto das duas marcas da igreja que seria difícil negar que ela é de fato uma verdadeira igreja. Ela pareceria constituir uma genuína congregação de crentes na qual o evangelho é ensinado (embora não puramente) e os sacramentos são administrados mais correta que erroneamente.”
Há igrejas falsas dentro do protestantismo? Olhando para as duas marcas distintivas da igreja, parece-me que muitas igrejas protestantes liberais de hoje são de fato falsas igrejas. Será que o evangelho da justiça pelas obras e da incredulidade na Escritura que essas igrejas ensinam é muito diferente com respeito à salvação do ensino da Igreja Católica Romana no tempo da Reforma? E o que essas igrejas fazem, administrando os sacramentos sem o ensino da sã doutrina a qualquer pessoa que aparece, dando falsa segurança a pecadores não regenerados, não é semelhante ao que os católicos faziam com os sacramentos no tempo da Reforma? Quando há uma assembléia de pessoas que leva o nome cristã, mas que ensina firmemente que as pessoas não podem crer em sua, Bíblias — de fato, uma igreja cujo pastor e congregação raramente lêem suas Bíblias ou oram de modo significativo, e não crêem ou talvez nem mesmo entendam o evangelho da salvação somente pela fé em Cristo — como podemos dizer que essa é uma verdadeira igreja?

Os propósitos da igreja

Podemos entender os propósitos da igreja em termos de ministério para com Deus, com os crentes e com o mundo.

1.     Ministério para com Deus:

Adoração. Em relação a Deus, o propósito da igreja é adorá-lo. Paulo aconselha a igreja de Colossos:”Cantem salmos,hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seu coração” (Cl 3.16). Deus nos destinou em Cristo e nos separou “a fim de que nós sejamos para o louvor da sua glória” (Ef 1.12).A adoração na igreja não é meramente a preparação para algo mais; ela é em si mesma o cumprimento do maior propósito da igreja com referência ao seu Senhor. Essa é a razão pela qual Paulo exortou os efésios a aproveitar “ao máximo cada oportunidade”, associando isso com o mandamento para que se enchessem do Espírito e, então, falassem entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor” (Ef 5.16-19).

2.     Ministério para com os crentes:

Fortalecimento. Segundo a Escritura, a igreja tem a obrigação de fortalecer os que já são crentes e edificá-los para chegarem à maturidade da fé. Paulo disse que seu alvo não era simplesmente trazer pessoas à fé inicial, mas advertir e ensinar “a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1.28). E ele disse à igreja de Éfeso que Deus deu à igreja pessoas capacitadas “com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo” (Ef 4.12,13). É claramente contrário ao padrão do NT pensar que o nosso único objetivo com as pessoas é trazê-las à fé salvadora inicial. Nosso alvo como igreja deve ser apresentar perante Deus todo cristão “perfeito em Cristo” (CL 1.28).

3.     Ministério para com o mundo:

Evangelização e misericórdia. Jesus disse aos discípulos que eles deveriam fazer “discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). Essa obra evangelística de declarar o evangelho é o ministério primário que a igreja tem para com o mundo. Todavia, um ministério de misericórdia deve vir acompanhando o ministério de evangelização, um ministério que inclua a preocupação com os pobres e necessitados, em nome do Senhor. Embora a ênfase do NT seja sobre dar ajuda material aos que são parte da igreja (At 11.29; 2Co 8.4; lJo 3.17), há ainda a afirmação de que é justo ajudar os descrentes mesmo que eles não respondam com gratidão ou que não aceitem a mensagem do evangelho. Jesus nos diz: “Amem, porém, os seus inimigos, façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem esperar receber nada de volta. Então, a recompensa que terão será grande e vocês serão filhos do Altíssimo, porque ele é bondoso para com os ingratos e maus. Sejam misericordiosos, assim como o pai de vocês é misericordio” (Lc 6.35,36).

O argumento da explicação de Jesus é que devemos imitar Deus em ser amáveis para os que são ingratos e maus.
Além disso, temos o exemplo de Jesus, que não buscou curar somente os que o aceitaram como Messias. Antes, quando grandes multidões vieram a ele, “ele os curou, impondo as mãos sobre cada um deles” (Lc 4.40). Isso deveria dar-nos encorajamento para praticar ações amáveis e orar pela cura e por outras necessidades na vida dos descrentes assim como na dos crentes. Tais ministérios de misericórdia ao mundo podem também incluir a participação em atividades cívicas ou a tentativa de influenciar a política governamental para torná-la mais compatível com os princípios morais da Bíblia. Nas áreas onde há sistematicamente injustiça manifestada no tratamento aos pobres, a grupos étnicos ou ainda a minorias religiosas, a igreja deveria também orar e — à medida que tem a oportunidade — pregar contra a injustiça. Todos esses são caminhos pelos quais a igreja pode suplementar o seu ministério evangelístico ao mundo e, de fato, embelezar o evangelho que professa. Mas tais ministérios de misericórdia ao mundo nunca devem tornar-se um substituto da genuína evangelização ou de outras áreas do ministério para com Deus e para com os crentes mencionados anteriormente.

4.     Mantendo esses propósitos em equilíbrio:

Uma vez que mencionamos esses propósitos para a igreja, alguém poderia perguntar: “Qual é o mais importante?”. Ou outra pessoa perguntaria: “Poderíamos considerar um desses três menos importante que os outros?”.
Devemos responder que os três propósitos da igreja são ordenados por Deus na Escritura; portanto, todos são importantes e nenhum deles pode ser negligenciado. De fato, uma igreja forte terá ministérios eficazes nessas três áreas. Devemos nos precaver contra quaisquer tentativas de reduzir o propósito da igreja a somente um dos três e dizer que esse deveria ser o foco principal. De fato, tais tentativas de tornar um dos três propósitos mais importantes sempre resultarão em alguma negligência dos outros dois.
Contudo, diferentemente das igrejas, os indivíduos devem estabelecer uma prioridade em relação a um ou outro desses propósitos da igreja. Porque somos iguais a um corpo com diversos dons espirituais e capacidades, é correto colocarmos ênfase maior no cumprimento do propósito da igreja que está relacionado mais de perto com os dons e interesses que Deus nos deu. Quem tem o dom de evangelização deve naturalmente gastar algum tempo com a adoração e preocupação com os crentes, mas pode acabar gastando muito mais tempo na obra evangelística. Alguém que é líder capacitado em matéria de adoração pode dedicar 90% de seu tempo na igreja à preparação e à condução do culto. Essa é apenas uma resposta apropriada para a diversidade de dons que Deus nos deu.

Os propósitos da igreja

Podemos entender os propósitos da igreja em termos de ministério para com Deus, com os crentes e com o mundo.

1.     Ministério para com Deus:

Adoração. Em relação a Deus, o propósito da igreja é adorá-lo. Paulo aconselha a igreja de Colossos:”Cantem salmos,hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seu coração” (Cl 3.16). Deus nos destinou em Cristo e nos separou “a fim de que nós sejamos para o louvor da sua glória” (Ef 1.12).A adoração na igreja não é meramente a preparação para algo mais; ela é em si mesma o cumprimento do maior propósito da igreja com referência ao seu Senhor. Essa é a razão pela qual Paulo exortou os efésios a aproveitar “ao máximo cada oportunidade”, associando isso com o mandamento para que se enchessem do Espírito e, então, falassem entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor” (Ef 5.16-19).

2.     Ministério para com os crentes:

Fortalecimento. Segundo a Escritura, a igreja tem a obrigação de fortalecer os que já são crentes e edificá-los para chegarem à maturidade da fé. Paulo disse que seu alvo não era simplesmente trazer pessoas à fé inicial, mas advertir e ensinar “a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1.28). E ele disse à igreja de Éfeso que Deus deu à igreja pessoas capacitadas “com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo” (Ef 4.12,13). É claramente contrário ao padrão do NT pensar que o nosso único objetivo com as pessoas é trazê-las à fé salvadora inicial. Nosso alvo como igreja deve ser apresentar perante Deus todo cristão “perfeito em Cristo” (CL 1.28).

3.     Ministério para com o mundo:

Evangelização e misericórdia. Jesus disse aos discípulos que eles deveriam fazer “discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). Essa obra evangelística de declarar o evangelho é o ministério primário que a igreja tem para com o mundo. Todavia, um ministério de misericórdia deve vir acompanhando o ministério de evangelização, um ministério que inclua a preocupação com os pobres e necessitados, em nome do Senhor. Embora a ênfase do NT seja sobre dar ajuda material aos que são parte da igreja (At 11.29; 2Co 8.4; lJo 3.17), há ainda a afirmação de que é justo ajudar os descrentes mesmo que eles não respondam com gratidão ou que não aceitem a mensagem do evangelho. Jesus nos diz: “Amem, porém, os seus inimigos, façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem esperar receber nada de volta. Então, a recompensa que terão será grande e vocês serão filhos do Altíssimo, porque ele é bondoso para com os ingratos e maus. Sejam misericordiosos, assim como o pai de vocês é misericordio” (Lc 6.35,36).

O argumento da explicação de Jesus é que devemos imitar Deus em ser amáveis para os que são ingratos e maus.
Além disso, temos o exemplo de Jesus, que não buscou curar somente os que o aceitaram como Messias. Antes, quando grandes multidões vieram a ele, “ele os curou, impondo as mãos sobre cada um deles” (Lc 4.40). Isso deveria dar-nos encorajamento para praticar ações amáveis e orar pela cura e por outras necessidades na vida dos descrentes assim como na dos crentes. Tais ministérios de misericórdia ao mundo podem também incluir a participação em atividades cívicas ou a tentativa de influenciar a política governamental para torná-la mais compatível com os princípios morais da Bíblia. Nas áreas onde há sistematicamente injustiça manifestada no tratamento aos pobres, a grupos étnicos ou ainda a minorias religiosas, a igreja deveria também orar e — à medida que tem a oportunidade — pregar contra a injustiça. Todos esses são caminhos pelos quais a igreja pode suplementar o seu ministério evangelístico ao mundo e, de fato, embelezar o evangelho que professa. Mas tais ministérios de misericórdia ao mundo nunca devem tornar-se um substituto da genuína evangelização ou de outras áreas do ministério para com Deus e para com os crentes mencionados anteriormente.

4.     Mantendo esses propósitos em equilíbrio:

Uma vez que mencionamos esses propósitos para a igreja, alguém poderia perguntar: “Qual é o mais importante?”. Ou outra pessoa perguntaria: “Poderíamos considerar um desses três menos importante que os outros?”.
Devemos responder que os três propósitos da igreja são ordenados por Deus na Escritura; portanto, todos são importantes e nenhum deles pode ser negligenciado. De fato, uma igreja forte terá ministérios eficazes nessas três áreas. Devemos nos precaver contra quaisquer tentativas de reduzir o propósito da igreja a somente um dos três e dizer que esse deveria ser o foco principal. De fato, tais tentativas de tornar um dos três propósitos mais importantes sempre resultarão em alguma negligência dos outros dois.
Contudo, diferentemente das igrejas, os indivíduos devem estabelecer uma prioridade em relação a um ou outro desses propósitos da igreja. Porque somos iguais a um corpo com diversos dons espirituais e capacidades, é correto colocarmos ênfase maior no cumprimento do propósito da igreja que está relacionado mais de perto com os dons e interesses que Deus nos deu. Quem tem o dom de evangelização deve naturalmente gastar algum tempo com a adoração e preocupação com os crentes, mas pode acabar gastando muito mais tempo na obra evangelística. Alguém que é líder capacitado em matéria de adoração pode dedicar 90% de seu tempo na igreja à preparação e à condução do culto. Essa é apenas uma resposta apropriada para a diversidade de dons que Deus nos deu.


Teologia Sistemática.
Wayne Grudem.
Ed. Vida.


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