terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Os dons
do Espírito Santo: Perguntas Gerais.
• Que são dons
espirituais?
• Quantos dons existem?
• Alguns dons cessaram?
• Como buscar e usar dons
espirituais?
1. EXPLICAÇÃO E BASE
BÍBLICA
A. Perguntas associadas
aos dons espirituais em geral.
Nas
gerações anteriores, os livros de teologia sistemática não continham capítulos
sobre os dons espirituais, porque havia poucas questões com respeito à natureza
e ao uso deles na igreja. Mas o século XX presenciou um aumento notável no
interesse pelos dons espirituais, principalmente
por causa da influência dos movimentos pentecostal e carismático na igreja.
Neste capítulo vamos analisar brevemente as questões gerais com respeito aos
dons espirituais, a seguir examinaremos a questão específica sobre se alguns
dons cessaram. Neste capítulo analisaremos o ensino do NT a respeito de dons
específicos.
[Estou
usando os termos pentecostal e carismático com o seguinte significado:
pentecostal refere-se a qualquer denominação ou grupo que tem sua origem
histórica no reavivamento pentecostal que começou nos Estados Unidos em 1901 e
que sustenta as posições doutrinárias de que a)
o batismo no Espírito Santo é um evento subseqüente à conversão; b) o batismo no Espírito Santo torna-se evidente pelo
sinal de falar em línguas e c) todos os dons
espirituais mencionados no NT devem ser buscados e usados hoje. Os grupos
pentecostais usualmente têm estruturas denominacionais distintas, sendo a Assembléia de Deus a mais proeminente.
O
termo carismático refere-se a quaisquer grupos (ou pessoas) que têm origem histórica no movimento de renovação carismática
dos anos 1960 e 1970, procuram praticar todos os dons espirituais
mencionados no NT (incluindo profecia, curas, milagres,
línguas, interpretação e discernimento de espíritos) e permitem
perspectivas diferentes sobre se o batismo no Espírito Santo é subseqüente à
conversão e se línguas é um sinal do batismo no Espírito Santo. Com muito maior
freqüência os carismáticos evitam formar suas próprias denominações, antes vêem
a si mesmos como uma força de renovação dentro das atuais igrejas protestantes
e da Igreja Católica.]
Antes
de começar a discussão, contudo, podemos definir dons espirituais da seguinte
maneira:
“Um
dom espiritual é qualquer habilidade que é concedida pelo Espírito Santo e
usada em qualquer ministério da igreja. Essa definição ampla inclui tanto os
dons que estão relacionados às capacidades espirituais (como ensino,
misericórdia ou administração) quanto os dons que parecem mais miraculosos e
menos relacionados a capacidades naturais (como profecia, curas ou
discernimento de espíritos).A razão para isso é que, quando Paulo menciona os
dons espirituais (Rm 12.6-8; lCo 7.7;
12.8-10,28; Ef 4.11)
ele inclui ambas as espécies de dons. Todavia, nem toda capacidade natural que
as pessoas têm está incluída aqui, porque Paulo é claro ao mencionar que todos
os dons espirituais devem ser autorizados “pelo mesmo e único Espírito” (lCo 12.11), que
eles são dados “visando
ao bem comum”(lCo 12.7) e que todos eles devem ser usados “para a edificação
da igreja”(lCo 14.26).
1. Os dons espirituais na
história da redenção.
Certamente o
Espírito Santo estava em operação no AT,
trazendo pessoas à fé e trabalhando de modo notável em alguns poucos indivíduos
como Moisés ou Samuel, Davi ou Elias.
Mas em geral havia uma atividade menos poderosa do Espírito Santo na vida da
maioria dos crentes. Havia pouca evangelização eficaz das nações, não havia
expulsão de demônios, curas miraculosas eram incomuns (embora tivessem acontecido, especialmente nos ministérios de Elias e
Eliseu), a profecia era restrita a poucos profetas ou pequenos grupos de
profetas e havia pouca experiência do que os crentes do NT chamariam de “poder da ressurreição” sobre o pecado,
no sentido de Romanos
6.1-14 e Filipenses 3.10.
O derramamento
do Espírito sobre a igreja com a plenitude e o poder da nova aliança ocorreu no
Pentecoste. Com isso,
uma nova era na história redentora estava inaugurada, e a capacitação da nova
aliança do Espírito Santo que fora profetizada pelos profetas do AT (cf. Jl 2.28,29)
havia chegado ao povo de Deus; a era da nova aliança se iniciara. E uma
característica desta nova era veio a ser a distribuição muito ampla de dons
espirituais a todas as pessoas que se tornaram participantes da nova aliança
—filhos e filhas, jovens e velhos, servos e servas, todos receberam uma
capacitação do Espírito Santo na nova aliança, e assim esperava-se que todos
recebessem também dons do Espírito Santo.
2. O propósito dos dons
espirituais na era do NT.
Os
dons espirituais são dados para equipar a igreja a fim de que ela desenvolva
seu ministério até que Cristo retorne. Paulo diz aos coríntios: “De modo que não
lhes falta nenhum dom espiritual, enquanto vocês esperam que o nosso Senhor
Jesus Cristo seja revelado” (lCo 1.7).Aqui ele conecta a posse dos
dons espirituais e a situação deles na história da redenção (esperando
pelo retorno de Cristo), sugerindo que os dons são dados para a igreja
para o período entre a ascensão de Cristo e o seu retorno. Semelhantemente,
Paulo olha em direção ao tempo do retorno de Cristo e diz: “Quando, porém, vier o que é perfeito, o que é
imperfeito desaparecerá” (lCo 13.10), indicando
também que esses dons “imperfeitos” (mencionados nos v. 8 e 9)
estarão em operação até que Cristo retorne, quando eles
haverão de ser substituídos por algo muito maior. De fato, o
derramamento do Espírito Santo com “poder” no Pentecoste (At 1.8) era para equipar a igreja
para pregar o evangelho (At 1.8) — algo que continuará até que Cristo
retorne. E Paulo lembra aos crentes que no uso que eles fazem dos dons
espirituais devem procurar “crescer naqueles que trazem a edificação para a igreja”
(lCo 14.12).
Mas
os dons espirituais não somente equipam a igreja para o tempo do retorno de
Cristo, eles também antecipam a era por vir. Paulo lembra aos coríntios que
eles foram “enriquecidos
em toda a sua linguagem e em todo o seu conhecimento, e que o resultado desse
enriquecimento era que eles não tinham falta de nenhum dom (lCo 1.5,7).
Exatamente como o próprio Espírito Santo aparece nesta época como a garantia do
pagamento inicial — o selo (2Co 1.22; cf. 2Co 5.5; Ef 1.14), que é o
começo de uma obra sua dentro de nós mais plena no futuro, assim os dons que o
Espírito Santo nos dá são uma amostra de uma obra mais plena que ele fará e que
será nossa no tempo que ainda vai chegar.
Desse
modo, os dons de discernimento prefiguram um discernimento muito maior que
teremos no tempo do retorno de Cristo. Os dons de conhecimento e sabedoria prefiguram uma sabedoria
muito maior que será nossa quando conhecermos “plenamente, da mesma forma como
[somos] plenamente [conhecidos]” (cf. lCo 13.12). Os dons de cura dão uma antevisão da saúde
perfeita que será nossa quando Cristo nos conceder os corpos ressuscitados.
Paralelos similares poderão ser encontrados em relação a todos os dons do NT.
Mesmo a diversidade de dons deve conduzir à unidade e à interdependência
maiores na igreja (v. lCo 12.12,13,24,25; Ef 4.l3), e essa
diversidade na unidade será em si mesma o prenúncio da unidade que os crentes
terão no céu.
3. Quantos dons há? As cartas do NT mencionam dons
espirituais específicos em seis passagens diferentes. - 3
3. Considere a seguinte
tabela:
|
1Coríntios 12.28
|
(2) profecia
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19. liderança
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1. apóstolo - 4
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12. discernimento de espíritos
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20. misericórdia
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2. profeta
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(8) línguas
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lCormtios 7.7
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3. mestre
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13. interpretação de línguas
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21. Casamento
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4. milagres
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Efésios 4.11 - 5
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22. Celibato
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5. dons de curar
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(1) apóstolo
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1 Pedro 4.11
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6. prestar ajuda
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(2) profeta
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Seja quem for que fale (compreendendo
vários dons)
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7. administração
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14. evangelista
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sejam quer for que sirva
(compreendendo vários dons)
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8. línguas
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15. pastor-mestre
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lCoríntios 12.8-10
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Romanos 12.6-8
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9. palavra de sabedoria
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(2) profecia
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10. palavra de conhecimento
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16. serviço
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11. fé
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(3) ensino
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(5) dons de curar
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17. dar ânimo
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(4) milagres
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18. contribuição
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|
3 - Algumas listas incluem tanto os ofícios como os dons.
4 - Estritamente falando, ser apóstolo é um ofício, não um dom.
5 - Esta lista fornece quatro tipos de pessoas em termos de ofícios
ou funções e não, estritamente falando, quatro dons. Para três das funções
desta lista, os dons correspondentes seriam profecia, evangelização e ensino.
O
que é óbvio é que essas listas são todas totalmente diferentes. Nenhuma lista
tem todos os dons, e nenhum dom é mencionado em todas as listas. De fato, lCoríntios 7.7
menciona dois dons que não estão nas outras listas, no contexto do casamento e do celibato, Paulo diz: “cada um tem o seu
próprio dom da parte de Deus; um de um modo, outro de outro”.
Esses
fatos indicam que Paulo não estava tentando construir listas exaustivas de dons
quando especificou alguns deles. Embora haja às vezes a indicação de alguma
ordem (ele coloca apóstolos em primeiro
lugar, depois profetas, mestres em terceiro, mas línguas em último em lCo 12.28),
parece que em geral Paulo estava quase casualmente listando séries de exemplos
diferentes de dons à medida que eles vinham à sua mente.
Além
disso, há algum grau de sobreposição entre os dons listados em vários lugares.
Sem dúvida o dom de administração (kybernёsis,
lCo 12.28) é similar ao dom de presidência (ho proistamenos, Rm
12.8), e ambos os termos poderiam provavelmente ser aplicados a
muitos que possuem o oficio de pastor-mestre (Ef 4.11). Ademais, em alguns casos
Paulo lista uma atividade e em outros casos lista o substantivo relacionado que
descreve a pessoa (como “dom de profetizar” em Rm 12.6 e em lCo 12.10, mas ”profetas”em lCo
12.28 e Ef4.1 1).
Quantos
dons diferentes temos então? Simplesmente depende do quanto queremos ser
específicos. Podemos fazer uma lista muito pequena de somente dois dons, como
Pedro faz em lPedro
4.1 1:”Se alguém fala, faça-o como quem transmite a palavra de Deus. Se alguém
serve, faça-o com a força que Deus provê”. Nessa lista de somente dois
itens, Pedro inclui todos os dons mencionados em qualquer outra lista porque
todos eles se encaixam em uma dessas duas categorias. Outras classificações de
dons incluem dons de conhecimento (como discernimento de espíritos, palavra da sabedoria, e
palavra de conhecimento), dons de poder (como milagres, curas e fé) e dons de
falar (línguas, interpretação e profecia). E poderíamos ainda fazer
uma lista muito mais longa, como a lista de 22 dons enumerados anteriormente.
A
questão central em tudo isso é simplesmente dizer que Deus dá à igreja uma
variedade espantosa de dons espirituais, e eles todos são sinais de sua graça
múltipla. De fato, Pedro diz:
“Cada um
exerça o dom que recebeu para servir os outros, administrando fielmente a graça
de Deus em suas múltiplas formas” (1 Pe 4.10; a expressão “múltiplas formas” é poikilos, que significa “ter muitas
facetas ou aspectos; ter rica diversidade”).
O
resultado prático desta discussão é que devemos ter o desejo de reconhecer e
apreciar as pessoas que têm dons que diferem dos nossos e de nossas
expectativas do que certos dons deveriam representar. Ademais, uma igreja sadia
terá uma grande diversidade de dons, e essa diversidade não deve conduzir à
fragmentação, mas à unidade maior entre os crentes na igreja. O argumento
integral de Paulo na analogia do corpo com muitos membros (lCo 12.12-26) é dizer que Deus
colocou-nos no corpo com essas diferenças de modo que pudéssemos depender uns
dos outros. “O
olho não pode dizer à mão: ‘Não preciso de você!’ Nem a cabeça pode dizer aos
pés: ‘Não preciso de vocês!’ Ao contrário, os membros do corpo que parecem mais
fracos são indispensáveis” (lCo 12.21,22; cf.v.4-6).
[O
termo grego para ”dom” aqui é charisma, o mesmo
termo que Paulo usa em lCoríntios 12—14 quando fala a respeito de dons espirituais.]
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4. Dons podem variar em
intensidade.
Paulo
diz que, se alguém tem o dom de profecia, deve
usá-lo “na
proporção da sua fé” (Rm 12.6), indicando que o dom pode ser mais ou
menos intensamente desenvolvido em diferentes indivíduos ou no mesmo indivíduo
durante um período de tempo. Essa é a razão pela qual Paulo pode lembrar a
Timóteo: ”Não
negligencie o dom que lhe foi dado” (lTm 4.14) e pode dizer: “torno a
lembrar-lhe que mantenha viva a chama do dom de Deus que está em você” (2Tm
1.6). Era possível Timóteo permitir que seu dom se enfraquecesse,
aparentemente pelo pouco uso, e Paulo procura lembrá-lo de reavivar o dom pelo
uso para com isso fortalecê-lo. Isso não nos deveria surpreender, pois
percebemos que muitos dons aumentam em força e em eficácia à medida que são
usados, seja evangelismo, ensino, exortação,
administração ou fé.
Textos
como os que vimos indicam que os dons espirituais podem variar em intensidade.
Se pensarmos em qualquer dom, seja de ensino ou
de evangelismo de um lado, ou profecia e curas de outro, devemos perceber que
dentro de qualquer congregação provavelmente haverá pessoas que são muito
eficazes no uso desse dom, talvez pelo longo uso e experiência, outros que
atuam moderadamente nesse dom, e outros que provavelmente têm o dom, mas estão
apenas começando a usá-lo. Essa variação em intensidade nos dons espirituais
depende de uma combinação da influência divina e humana. A influência divina é
a operação soberana do Espírito Santo, que ele “distribui individualmente, a cada um, como
quer” (lCo 12.11). A influência humana vem da experiência, treino,
sabedoria e capacidade natural no uso de um dom. Geralmente não é possível
saber em que proporção as influências divina e humana combinam em determinado
momento, nem é realmente necessário saber, pois mesmo as capacidades que
pensamos ser naturais procedem de Deus (lCo 4.7) e estão debaixo do seu controle
soberano.
Mas isso conduz a uma
pergunta interessante: Quanta força uma capacidade deve demonstrar antes de ser
chamada dom espiritual?
De quanta capacidade para o ensino uma pessoa precisa para se dizer que ela tem
o dom do ensino, por exemplo? Ou até que ponto
um indivíduo deve ser eficaz na evangelização antes de reconhecermos que ele
tem o dom de evangelização? Ou com quanta
freqüência alguém teria de ver suas orações por cura serem respondidas antes do
reconhecimento de que tem o dom de cura?
A
Escritura não responde diretamente a essa pergunta, mas o fato de que Paulo
fala desses dons como úteis para a edificação da igreja (lCo 14.12) e o fato de que Pedro
igualmente diz que cada pessoa que recebeu um dom deveria lembrar-se de
empregá-lo para “servir
os outros” (1 Pe 4.10) sugerem que tanto Paulo como Pedro pensaram
nos dons como capacidades que eram fortes o suficiente para funcionar em
benefício da igreja, seja para a congregação reunida (como em profecia ou ensino), seja para indivíduos na congregação (como prestar ajuda ou exortação).
Provavelmente nenhuma linha definida pode ser traçada nesse assunto, mas Paulo nos relembra de que ninguém possui
todos os dons nem ninguém fica sem algum dom. Ele é muito claro quanto a
isso, e um conjunto de perguntas tem uma resposta “não”
em cada uma delas: “São todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres?
Têm todos o dom de realizar milagres? Têm todos dons de curar? Falam todos em
línguas? Todos interpretam?” (lCo 12.29,30).
O
texto grego (com o particípio me antes
de cada pergunta) claramente pressupõe a resposta negativa a cada pergunta.
Portanto, nem todos são mestres, por exemplo, nem todos possuem dons de cura, nem todos falam
em línguas.
Mas
embora nem todos tenham o dom de ensino, é
verdade que todos os apóstolos “ensinam” em
algum sentido da palavra ensinar. Mesmo as pessoas que nunca sonharam ensinar
em uma classe de escola dominical vão ler histórias bíblicas para os seus
próprios filhos e explicar o significado delas —de fato, Moisés ordenou aos
israelitas que fizessem isso com seus filhos (Dt 6.7), explicando-lhes as
palavras de Deus à medida que se assentavam em sua casa ou andavam pelo
caminho. Assim, por um lado devemos dizer que nem todos têm o dom de ensino.
Mas, por outro lado, devemos dizer que há uma capacidade geral relacionada ao
dom de ensino que todos os cristãos possuem. Outro modo de expressar isso seria
dizer que não há nenhum dom espiritual que todos os crentes tenham, todavia há
uma capacidade geral similar a cada dom que todos os cristãos possuem.
Podemos
ver isso com muitos dons. Nem todos os cristãos têm o dom
de ser evangelistas, mas todos os cristãos têm a capacidade de
compartilhar o evangelho com seus vizinhos. Nem todos os cristãos têm dons de cura, mas ainda assim cada cristão pode orar
e realmente ora a Deus pela cura de amigos ou parentes que estão doentes.
Podemos
até dizer que outros dons, como profecia, não
somente variam em intensidade entre os que possuem o dom, mas também encontram
um complemento em algumas capacidades gerais que são encontradas na vida de
cada cristão. Por exemplo, se entendemos profecia (de acordo com a definição dada no capítulo 30) como “relatar algo que Deus traz à mente”,
então é verdade que nem todo mundo experimenta isso como dom, pois nem todos
experimentam Deus trazendo coisas espontaneamente à mente com tal clareza e
força que a pessoa se sente livre para falar a respeito delas em um grupo de
cristãos. Mas provavelmente todo crente teve uma vez ou outra a percepção de
que Deus lhe estava trazendo à mente a necessidade de orar por um amigo
distante, ou escrever, ou telefonar para dizer uma palavra de encorajamento a
alguém distante, e mais tarde verificou que isso era exatamente o que aquela
pessoa estava precisando naquele momento. Poucos haveriam de negar que Deus
soberanamente lhes trouxe aquela necessidade à mente de modo espontâneo e, embora isso não
seja chamado de dom de profecia, é uma capacidade geral de receber
uma direção ou orientação especial de Deus que é semelhante ao que acontece no
dom de profecia, mas que funciona em um nível mais fraco.
O ponto central
dessa discussão toda é simplesmente dizer que os dons espirituais não são tão
misteriosos e “coisas do outro mundo” como as pessoas costumam pensar. Muitos
deles são intensificações ou exemplos de fenômenos altamente desenvolvidos que
muitos cristãos experimentam em sua vida. Outra conclusão importante a ser
tirada dessa discussão é que, muito embora tenhamos recebido dons de Deus,
somos ainda responsáveis por usá-los eficazmente e desenvolvê-los, para que a
igreja possa receber mais benefícios dos dons dos quais Deus permitiu que
fôssemos mordomos.
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5. Descobrindo e
procurando dons espirituais.
Paulo
parece presumir que os crentes saberão quais são os seus dons espirituais. Ele
simplesmente diz aos da igreja de Roma para usarem os seus dons espirituais de
vários modos: “Temos
diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de
profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é
ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua
generosamente; se é exercer liderança, que a exerça com zelo; se é mostrar
misericórdia, que o faça com alegria” (Rm 12.6-8). Semelhantemente,
Pedro diz a seus leitores como usar seus dons, mas não diz nada a respeito de
descobrir quais são eles: “Cada um exerça o dom que recebeu para servir os outros,
administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas” (lPe 4.10).
Mas
o que acontece se muitos membros na igreja não sabem quais são os dons
espirituais que Deus lhes deu? Em tal caso, os líderes da igreja precisam
perguntar se estão proporcionando oportunidades suficientes para as variedades
de dons serem usados. Embora as listas de dons dadas no NT não esgotem a
questão, elas certamente proporcionam um bom ponto de partida para as igrejas
perguntarem se ao menos há oportunidade para esses dons serem usados. Se Deus
colocou pessoas com certos dons em uma igreja, quando esses dons não são
encorajados ou quem sabe não permitidos, elas se sentirão frustradas e não
cumprirão os seus ministérios cristãos, e talvez se mudem para outra igreja
onde seus dons possam ser usados para o benefício da igreja.
Além
da questão de descobrir quais dons uma pessoa tem, existe a questão da busca de
dons adicionais. Paulo ordena aos cristãos: ”Entretanto, busquem com dedicação os melhores dons”(lCo
12.3l). Mais adiante, diz: “Sigam o caminho do amor e busquem com dedicação os dons
espirituais, principalmente o dom de profecia” (lCo 14.1). Nesse
contexto, Paulo define o que quer dizer com “melhores dons”, porque em lCoríntios 14.5
ele repete a palavra que usou em 12.31 para “melhores” (gr.
meizõn) quando diz que quem “profetiza é maior do que aquele que fala em línguas, a não
ser que as interprete, para que a igreja seja edificada” (lCo 14.5).Aqui
os dons “melhores” são aqueles que mais
edificam a igreja. Isso está de acordo com a afirmação de Paulo poucos
versículos mais adiante, quando diz: “Visto que estão ansiosos por terem dons espirituais,
procurem crescer naqueles que trazem a edificação para a igreja” (lCo 14.12). Os
dons melhores são os que mais edificam a igreja e que trazem mais beneficio
para os outros.
Mas
como procurar mais dons espirituais? Primeiro, devemos pedir a Deus por eles.
Paulo diz diretamente que “quem fala em uma língua, ore para que a possa interpretar”
(lCo 14.13; cf. Tg 1.5, onde Tiago diz às pessoas que elas devem
pedir a Deus sabedoria). A seguir, pessoas que procuram dons
espirituais adicionais devem apresentar os motivos corretos. Se os dons
espirituais são buscados somente para que a pessoa possa ser mais proeminente
ou ter mais influência e poder, isso certamente está errado aos olhos de Deus.
Essa era a motivação de Simão, o mago,
em Atos 8.19,
quando ele disse: “Dêem-me também este poder, para que a pessoa sobre quem eu
puser as mãos receba o Espírito Santo” (v. repreensão de Pedro nos v. 21 e 22).
É algo temerário querer dons espirituais ou proeminência na igreja
somente para a nossa glória, não para a glória de Deus e para o socorro de
outros. Portanto,
os que procuram dons espirituais devem primeiro perguntar se a si mesmos se os
estão procurando por amor a outros e com a preocupação de ser capazes de
ministrar às necessidades deles, porque os que possuem grandes dons espirituais
mas não têm amor nada representam à vista de Deus (cf. lCo 13.1-3).
Dentro
desses parâmetros, é apropriado procurar oportunidades para exercer o dom,
exatamente como no caso da pessoa que tenta descobrir seu dom, como explicado
anteriormente.
Finalmente,
os que estão procurando dons espirituais adicionais devem continuar a usar os dons
que já sabem que possuem e ficar contentes se Deus resolve não lhes dar mais
dons. O senhor aprovou o servo que fez render dez vezes mais a mina, mas
condenou o que a conservou “guardada num pedaço de pano” (Lc 19.16,17,20-23)
— certamente
mostrando-nos que temos a responsabilidade de usar e tentar aumentar os
talentos e habilidades que Deus nos deu como seus mordomos. Devemos
equilibrar isso lembrando que os dons espirituais são distribuídos a cada
pessoa individualmente pelo Espírito Santo “como ele quer”(lCo 12.11) e que “Deus dispôs cada
um dos membros no corpo, segundo a sua vontade” (lCo 12.18). Desse
modo, Paulo recorda aos coríntios que, em última análise, a distribuição dos
dons é um assunto da soberania divina: é para o bem da igreja e para o nosso
bem que nenhum de nós tem todos os dons, e precisamos continuamente depender de
outros que possuem dons diferentes dos nossos. Essas considerações devem
contentar-nos quando Deus decidir não nos dar os outros dons que procuramos.
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B. Alguns dons cessaram?
No
mundo evangélico de hoje há posições diferentes com respeito a esta pergunta: “Todos os dons mencionados no NT são válidos
para o uso na igreja hoje?”. Alguns dizem sim. Outros diriam não, e
argumentariam que alguns dos dons mais miraculosos (como profecia, línguas e interpretação, e talvez curas e expulsão de
demônios) foram dados somente no tempo dos apóstolos, como “sinais” para autenticar a pregação
primitiva do evangelho. Eles afirmam primeiramente que esses dons não são mais
necessários como sinais hoje e que cessaram no fim da era apostólica,
provavelmente no final do século I ou no começo do século II d.C.
Devemos
também compreender que há um grande grupo “intermediário”
com respeito a esse assunto, um grupo das “principais
correntes evangélicas” que não é carismático nem pentecostal de um lado,
nem “cessacionista” de outro, mas estão
simplesmente indecisos e incertos se essa questão pode ser decidida com
informações da Escritura.
[A palavra cessacionista
significa alguém que pensa que certos dons espirituais miraculosos cessaram muito
tempo atrás, quando os apóstolos morreram e a Escritura tornou-se completa.]
Muitos
aspectos desse debate centralizam-se sobre o significado de lCoríntios 13.8-13, onde Paulo
diz:
O amor nunca perece;
mas as profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o conhecimento passará.
Pois em parte conhecemos e em parte profetizamos; quando, porém, vier o que é
perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era menino, falava como
menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem,
deixei para trás as coisas de menino. Agora, pois, vemos apenas um reflexo
obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em
parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente
conhecido.Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O
maior deles, porém, é o amor (lCo 13.8-13).
1. lCoríntios 13.8-13 nos
diz quando os dons miraculosos cessarão?
O
propósito dessa passagem é mostrar que o amor é superior aos dons como profecia
porque os dons passarão, mas o amor nunca passará. Devemos entender “o que é imperfeito” no versículo 10
como incluindo não somente a profecia,
mas igualmente outros dons como “línguas”
e “conhecimento”, haja vista que estes são mencionados no versículo 8 como
coisas que passarão. O ponto-chave é saber o tempo que a palavra “quando” indica no versículo 10: “quando, porém,
vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá”. Alguns que
sustentam que esses dons cessaram crêem que essa frase se refere ao tempo
anterior à época do retorno do Senhor, como o tempo “quando a igreja está madura” ou “quando a Escritura está completa”. Contudo, o significado do versículo 12 parece
exigir que essa frase se refira ao tempo do retorno do Senhor. A frase “veremos face a face” é
usada diversas vezes no AT para se referir a ver Deus pessoalmente’ — não plena
ou exaustivamente, porque nenhuma criatura finita pode fazer isso, mas ainda
assim de modo pessoal e verdadeiro. Assim, quando Paulo diz “veremos face a
face”, ele claramente quer dizer “veremos Deus face a face”. De
fato, essa será a maior bênção do céu e a nossa maior alegria por toda a
eternidade (Ap
22.4: “Verão a sua face, e o seu nome estará em suas testas”). Esse
evento poderá acontecer somente quando o Senhor retornar. Além disso, a segunda
metade do versículo 12 diz: “Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da
mesma forma como sou plenamente conhecido”. Paulo não espera possuir
um conhecimento infinito, mas sim, quando o Senhor retornar, ele espera ser
liberto dos falsos conceitos e das incapacidades de entender (especialmente de entender Deus e sua obra)
que são parte desta vida presente. O seu conhecimento vai recordar o
conhecimento atual que Deus tem dele porque não conterá nenhuma impressão falsa
e não será limitado ao que é capaz de ser percebido neste presente tempo. Mas
tal conhecimento ocorrerá somente quando o Senhor retornar.
Esse
é o tempo ao qual o versículo 10 se refere quando diz “quando, porém, vier o que éperfeito, o que é
imperfeito desaparecerá”. Quando Cristo retornar, ”o que é
imperfeito”, ou modo parcial de adquirir conhecimento a respeito de
Deus, passará porque a espécie de conhecimento que teremos na consumação final
de todas as coisas fará com que os dons imperfeitos sejam obsoletos. Isso
significa, contudo, que até que Cristo retorne tais dons continuarão a existir
e serão úteis ao longo de toda a era da igreja, incluindo hoje, e até o dia da
segunda vinda de Cristo.
Além
disso, essa interpretação parece encaixar-se melhor com o propósito global da
passagem. Paulo está tentando enfatizar a grandeza do amor e firmar que o “amor nunca perece
(lCo 13.8). Para provar esse ponto, ele argumenta que o amor
avançará para além do tempo em que o Senhor retornar, diferentemente dos atuais
dons espirituais. Isso se torna um argumento convincente: o amor é tão
fundamental para os planos de Deus para o universo que ele durará além da
transição desta presente era para a era por vir no retorno de Cristo — ele
continuará por toda a eternidade.
Finalmente,
uma afirmação mais geral de Paulo a respeito do propósito dos dons espirituais
na era do NT dá suporte a essa interpretação. Em lCoríntios 1.7 Paulo liga a posse
dos dons espirituais (gr., charismata)
à atividade de esperar pelo retorno do Senhor: “De modo que não lhes falta nenhum dom espiritual, enquanto vocês
esperam que o nosso Senhor Jesus Cristo seja revelado”. Isso sugere que
Paulo viu os dons como provisão temporária dada para equipar os crentes para o
ministério até que o Senhor retorne. Assim, esse versículo proporciona um
paralelo próximo ao pensamento de lCoríntios 13.8-13, onde a profecia e o
conhecimento (e sem dúvida línguas)
são vistos, semelhantemente, como úteis até o retorno de Cristo, mas
desnecessários daquele período em diante.
lCoríntios
13.10, portanto,
refere-se ao tempo do retorno de Cristo e afirma que esses dons espirituais
durarão entre os crentes até aquele tempo. Isso significa que nós temos uma
afirmação bíblica clara de que Paulo esperava que esses dons continuassem por
toda a era eclesiástica e funcionassem para o benefício da igreja até o retorno
de Cristo.
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2. A continuação da
profecia hoje desafiaria a suficiência da Escritura?
Alguns
que assumem a posição “cessacionista”
argumentam que permitir “palavras de
Deus” provindo de elocuções proféticas contínuas seria, de fato,
acrescentar algo à Escritura ou competir com a Escritura. Em ambos os casos, a
suficiência da Escritura em si mesma seria desafiada, e, na prática, sua
autoridade singular em nossa vida ficaria comprometida. Contudo, tenho
argumentado exaustivamente em outras obras que a profecia congregacional
ordinária nas igrejas do NT não possuía a mesma autoridade que a Escritura. Ela
não era proferida em vocábulos que eram as verdadeiras palavras de Deus, antes era
falada em palavras meramente humanas. E porque ela tem essa autoridade menor,
não há razão alguma para pensar que ela não continuará na igreja até que Cristo
retorne. Ela não ameaça nem compete com a Escritura em
autoridade, mas está sujeita à Escritura, assim como ao julgamento maduro da
congregação.
Outra
objeção é por vezes levantada a esta altura. Alguns vão argumentar que, mesmo
que quem usa o dom de profecia hoje diga que ela não é igual à Escritura em
autoridade, ela de fato funciona na vida deles competindo com as Escrituras ou
até para substituindo-as na orientação com respeito à vontade de Deus. Assim, a
profecia hoje, segundo dizem, desafia a doutrina da suficiência da Escritura
para a orientação em nossa vida.
Aqui
deve-se admitir que muitos erros têm sido cometidos na história da igreja. Mas
nessa discussão a questão deve ser: Os abusos são necessários para o
funcionamento do dom de profecia? Se tivermos de argumentar que os erros e
abusos de um dom invalidam o dom em si mesmo, então teremos de rejeitar o
ensino da Bíblia (pois muitos mestres de
Bíblia têm ensinado erros e iniciado seitas) bem como a administração da
igreja (pois muitos líderes de igreja
têm contribuído para o desvio de pessoas), e assim por diante. O abuso de
um dom não significa que devamos proibir o uso devido do dom, a menos que possa
ser demonstrado que é impossível haver um uso adequado dele — que todo uso tem
de ser um abuso.
3. Os dons miraculosos
somente acompanharam o surgimento da nova Escritura? Outra objeção é dizer que os dons
miraculosos acompanharam o surgimento da Escritura, e, já que não há nenhuma
nova Escritura concedida em nossos dias, não devemos esperar novos milagres
hoje.
Em
resposta a essa tese deve ser dito que esse não é o único nem mesmo o maior propósito
dos dons miraculosos. Os milagres têm outros propósitos na Escritura: 1)
autenticam a mensagem do evangelho por toda a era da igreja; 2)
prestam ajuda aos que estão necessitados, e, com isso, demonstram a
misericórdia e o amor de Deus; 3) equipam as pessoas para o ministério; e 4)
glorificam a Deus.
Devemos
também observar que nem todos os milagres acompanham a concessão de uma
Escritura adicional. Por exemplo, tanto o ministério de Elias como o de Eliseu
foram marcados por diversos milagres no AT, mas eles não escreveram nenhum
livro nem nenhuma seção da Bíblia. No NT, houve muitas ocorrências de milagres que
não foram acompanhados pela concessão da Escritura. No livro de Atos, tanto
Estevão como Filipe operaram milagres, mas não escreveram nenhuma Escritura.
Houve profetas que não escreveram nenhuma Escritura em Cesaréia (At 21.4) e Tiro (At 21.9-11), em Roma (Rm
12.6) e em Tessalônica (lTs 5.20,21), em
Éfeso (Ef :1 4.11) e nas comunidades às quais lJoão foi escrita (lJo
4.1-6). Houve aparentemente muitos milagres
nas igrejas da Galácia (Gl 3.5). E Tiago espera que a cura ocorra pelas
mãos dos presbíteros em todas as igrejas às quais escreve (v. Tg 5.14-16).
4. É perigoso uma igreja
admitir a possibilidade de dons miraculosos hoje?
A
objeção final proposta pela posição cessacionista é dizer que uma igreja que
enfatiza o uso dos dons miraculosos está em perigo de cair em desequilíbrio e
provavelmente negligenciara outras coisas importantes como evangelização, sã
doutrina e a pureza moral de vida.
Dizer
que o uso de dons miraculosos é “perigoso”
não é em si mesma uma crítica adequada, porque há coisas corretas que são
perigosas, ao menos em algum sentido. A
obra missionária é perigosa. Dirigir
um carro é perigoso. Se definirmos perigoso como significando “algo que pode
dar errado”, então podemos criticar qualquer coisa que alguém possa fazer como
“perigosa”, e a crítica assume múltiplos propósitos quando não há nenhum abuso
específico a apontar. Uma abordagem melhor com respeito aos dons
espirituais seria perguntar: “Eles estão
sendo usados de acordo com a Escritura?” e “Os passos dados para se guardar contra os perigos do abuso são
adequados?”.
Naturalmente
é verdade que igrejas podem tornar-se desequilibradas, e algumas de fato se tornaram.
Mas nem todas são assim, nem precisam ser. Ademais, visto que esse argumento é baseado
em resultados reais da vida de uma igreja, também é apropriado perguntar: “Que igrejas no mundo têm hoje em dia a
evangelização mais eficaz? Quais apresentam maior contribuição sacrificial
entre seus membros? Quais, de fato, dão a maior ênfase em pureza de vida? Quais
têm o amor mais profundo pelo Senhor e por sua Palavra?”. Embora seja
difícil responder a essas perguntas claramente, não creio que possamos dizer
com justiça que as igrejas dos movimentos
carismático e pentecostal são mais fracas nessas áreas que outras igrejas
evangélicas. De fato, em alguns casos elas podem ser até mais fortes nessas
áreas. A questão é que qualquer argumento que diga que as igrejas que enfatizam
os dons miraculosos se tornarão desequilibradas simplesmente não é provado na
prática.
5. Nota final:
cessacionistas e carismáticos precisam uns dos outros.
Finalmente,
pode-se argumentar que os do lado carismático e pentecostal e os do lado
cessacionista (especialmente os
reformados e os cristãos dispensacionalistas) realmente precisam uns dos
outros e fariam bem se desenvolvessem maior apreciação mútua. Os primeiros tendem a ter mais experiência prática no uso dos
dons espirituais e na vitalidade na adoração, áreas em que os cessacionistas
poderão se beneficiar mais, caso estiverem desejosos de aprender. Por outro lado,
os reformados e grupos dispensacionalistas tradicionalmente são muito fortes no
entendimento da sã doutrina, na profundidade e no entendimento preciso dos
ensinos da Escritura. Os grupos carismático e pentecostal poderão
aprender muito com eles, se estiverem desejosos disso. Mas certamente não é
útil para a igreja como um todo, de ambos os lados, crer que eles não possam
aprender nada uns com os outros ou que eles não possam obter nenhum benefício
da comunhão uns com os outros.
Teologia
Sistemática.
Wayne Grudem.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
A natureza da igreja
Como
reconhecer uma verdadeira igreja?
Quais
são os propósitos da igreja?
O
que torna uma igreja mais ou menos agradável a Deus?
EXPLICAÇÃO
E BASE BÍBLICA
A
natureza da igreja
A
Definição: A igreja é a comunidade de todos os verdadeiros crentes em todas as
épocas. Essa definição entende que a igreja seja composta de todos os que são
verdadeiramente salvos. Paulo diz que “Cristo amou a
igreja e entregou-se por ela” (Ef 5.25). Aqui a palavra “igreja”
aplica-se a todos aqueles por quem Cristo morreu a fim de redimi-los, todos os
que são salvos pela morte de Cristo. Mas ela deve incluir todos os verdadeiros
crentes de todas as épocas, tanto do período do NT como do período do AT. É tão
grande o plano de Deus para a igreja que ele exaltou Cristo a uma posição
elevada de autoridade por amor à sua igreja: “Deus colocou todas as coisas debaixo de seus pés e o
designou cabeça de todas as coisas para a igreja, que é o seu corpo, a
plenitude daquele que enche todas as coisas, em toda e qualquer circunstância”
(Ef 1.22,23).
O
próprio Jesus Cristo edifica sua igreja chamando para si o seu povo. Ele
prometeu: ”edificarei a minha igreja” (Mt 16.18). Mas esse processo pelo qual Cristo edifica a
igreja é apenas a continuação do padrão estabelecido por Deus no AT, quando ele
chamou pessoas para si mesmo para serem uma assembléia adoradora perante ele.
Há diversas indicações no AT de que Deus viu seu povo como “igreja”, o povo
reunido com o propósito de adorá-lo. Quando Moises diz ao povo que o Senhor lhe
havia dito: “Reúna o povo diante de mim para ouvir as
minhas palavras, a fim de que aprendam a me temer enquanto viverem sobre a
terra, e as ensinem a seu filhos” (Dt 4.10), a LXX traduz a palavra “reunir”
(heb. q ¯ ahal) usando o termo grego ekkl¯ esiaz ¯o, que significa “convocar uma assembléia”, um verbo que é cognato
do substantivo grego do NT ekkl¯ esia, “igreja”
Não
é de surpreender que os autores do NT falem do povo de Israel do AT como
“igreja” (ekklēsia). Por exemplo, Estêvão
fala do povo de Israel no deserto como “a igreja
(ekklēsia) no desertor (At 7.38, tradução do autor). Da mesma forma o
autor de Hebreus cita Cristo referindo-se a ele como quem haveria de louvar a
Deus no meio da grande assembléia do povo de Deus no céu: “Proclamarei o teu nome a meus irmãos; na igreja (ekklēsia)
te louvarei” (Hb 2.12, tradução do autor; o escritor de Hebreus está
citando SL 22.22).
Portanto,
o autor de Hebreus entende que os cristãos do tempo presente que constituem a
igreja sobre a terra estão cercados por uma grande ”nuvem
de testemunhas” (Hb 12.1) que abrange retroativamente as épocas do AT,
incluindo Abel, Enoque, Noé, Abraão, Sara, Gideão, Baraque, Sansão, Jefté,
Davi, Samuel e os profetas (Hb 11.4-32). Todas essas “testemunhas” rodeiam o
povo de Deus do tempo presente, e parece apropriado pensar que elas, juntamente
com o povo de Deus do NT, sejam a grande “assembléia” espiritual de Deus, ou
seja, a “igreja” Portanto, muito embora
haja certamente novos privilégios e novas bênçãos conferidas ao povo de Deus no
NT, ambos os usos do termo igreja na Escritura e o fato de que por meio de toda
a Escritura Deus sempre chamou seu povo para reunir-se para a adoração do seu
nome indicam que é correto entender que a igreja é constituída de todo o povo
de Deus de todas as épocas, tanto dos crentes do AT como do NT.
2. A igreja é
invisível, todavia visível.
Em sua verdadeira realidade espiritual como a comunhão de todos os crentes
genuínos, a igreja é invisível. Isso porque não podemos ver a condição
espiritual do coração das pessoas. Podemos ver exteriormente os que freqüentam
a igreja e observar evidências exteriores de mudanças espirituais interiores,
mas realmente não podemos olhar para o coração das pessoas e ver o estado
espiritual delas — somente Deus pode fazer isso. É por isso que Paulo diz: “O Senhor conhece
quem lhe pertence” (2Tm 2.19). Em
nossas igrejas e em nossa vizinhança, somente Deus sabe com certeza (sem margem
de erro) quem são os verdadeiramente crentes. Falando da igreja como invisível,
o autor de Hebreus refere-se “à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus” (Hb
12.23) e diz que os cristãos do tempo presente se juntam a essa
assembléia em adoração.
Podemos
dar a seguinte definição: A igreja invisível é a igreja como Deus a vê. Tanto
Martinho Lutero como João Calvino foram enfáticos em afirmar esse aspecto
invisível da igreja contra o ensino de que a Igreja Católica Romana era a única
organização visível que descendia dos apóstolos em linhagem ininterrupta de
sucessão (por meio dos bispos da igreja). A Igreja Católica Romana argumentava
que somente em sua organização visível poderíamos encontrar a verdadeira
igreja, a única igreja verdadeira. Mesmo hoje tal pensamento é sustentado pela
Igreja Católica Romana. Tanto Lutero como Calvino discordaram dessa idéia,
asseverando que a Igreja Católica Romana possuía uma forma exterior, uma
organização, mas que isso era apenas uma casca. Calvino argumentou que
exatamente como Caifás (o sumo sacerdote do tempo de Jesus) descendia de Arão,
mas não era um verdadeiro sacerdote, assim os bispos católicos romanos
“descendiam” dos apóstolos segundo a linhagem de sucessão, mas não eram
verdadeiros bispos da igreja de Cristo, pois haviam se desviado da verdadeira
pregação do evangelho. Logo, sua organização visível não era a verdadeira
igreja.
A
verdadeira igreja de Cristo, no entanto, certamente também possui um aspecto
visível. Podemos usar a seguinte definição: A igreja visível é a igreja como os
cristãos a vêem. Nesse sentido, a igreja visível inclui todos os que professam
a fé em Cristo e dão evidência dessa fé em sua vida.
Nessa
definição, não estamos dizendo que a igreja visível é a igreja que qualquer
pessoa no mundo (como um descrente ou alguém que sustenta ensinos heréticos)
pode ver, mas estamos falando da igreja como ela é percebida por aqueles que
são crentes genuínos e que têm um entendimento da diferença entre crentes e
descrentes.
A
igreja visível espalhada por todo o mundo sempre incluirá alguns descrentes, e
as congregações individuais normalmente incluirão alguns descrentes, porque não
podemos ver o coração como Deus vê. Paulo fala de Himeneu e Fileto: “O ensino deles
alastra-se como câncer [...] Estes se desviaram da verdade li.] a alguns pervertem
a fé” (2Tm 2.17,18). Mas ele está confiante de que “o Senhor conhece quem lhe pertence” (2Tm
2.19). Semelhantemente, Paulo adverte os presbíteros de Éfeso: “Sei que, depois
da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o
rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a
fim de atrair os discípulos” (At 20.29,30). O próprio Jesus
advertiu: “Cuidado
com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por
dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos” (Mt
7.15,16). Percebendo essa distinção entre a igreja invisível e a
visível, Agostinho disse da igreja visível: “Muitas são as ovelhas do lado de
fora, muitos os lobos do lado de dentro”.
Quando
reconhecemos que há descrentes na igreja visível, há o perigo de nos tornarmos
demasiadamente desconfiados e de começarmos a duvidar da salvação de muitos
crentes verdadeiros. Calvino advertiu contra esse perigo dizendo
que devemos fazer um “juízo de afeição” pelo qual reconhecemos como membros da
igreja todos os que “pela confissão de fé, e pelo exemplo de vida, e pela
participação dos sacramentos, conosco professam o mesmo Deus e Cristo”.
Devemos tentar não excluir pessoas da comunhão da igreja até que elas por pecado
público tragam disciplina sobre si mesmas. E óbvio, contudo, que a igreja não
deveria tolerar em seu rol de membros “descrentes confessos” que, por profissão
ou por vida, claramente se declaram fora da verdadeira igreja.
3. A igreja é
local e universal.
No NT a palavra igreja pode ser aplicada a um grupo de crentes em qualquer
nível, desde a reunião de um grupo pequeno em uma casa particular até um grupo
de verdadeiros crentes na igreja universal. A comunidade que se reunia nas
casas é chamada “igreja” em Romanos
16.5 e lCoríntios 16.19 (“Áqüila e Priscila 1 [...] e
também a igreja que se reúne na casa deles”). A igreja que se encontra
em uma cidade também é chamada “igreja” (1 Co. 1.2; 2Co 1.1; lTs 1.l).A igreja
de uma região é chamada ”igreja” em Atos
9.31:”A igreja passava. por um período de paz em toda a Judéia, Galiléia e
Sarnaria”. Finalmente, a igreja por todo o mundo pode ser chamada “igreja”.
Paulo diz: “Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Ef 5.25), e disse
ainda: “Na igreja, Deus estabeleceu
primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; e em terceiro lugar,
mestres...” (lCo 12.28). Neste versículo, a menção de “apóstolos”, que não
foram dados à igreja individual, garante que a referência seja à igreja
universal.
Podemos
concluir que o grupo do povo de Deus considerado em qualquer nível desde a
igreja local até a universal pode corretamente ser chamado “igreja”. Não
devemos cometer o erro de dizer que somente a reunião de pessoas em casas
expresse a verdadeira natureza da igreja, ou que somente igreja no nível de uma
cidade possa ser corretamente chamada “igreja”,’ ou que somente a igreja
universal possa ser corretamente chamada “igreja”. Ao contrário, a comunidade
do povo de Deus considerada em qualquer nível pode corretamente ser chamada
igreja.
4. Metáforas para a igreja. A fim de nos
ajudar no entendimento da natureza da igreja, a Escritura usa uma variedade de
imagens para nos descrever a que a igreja se assemelha. Há diversas imagens
relacionadas com a família — por exemplo, Paulo vê a igreja como a família
maior: “Não repreenda asperamente o
homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a
irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a
pureza” (lTm 5.1,2). Deus é o nosso Pai celestial (Ef 3.14), e nós somos
seus filhos e filhas, pois Deus nos diz:
“Lhes serei Pai, e vocês serão meus filhos e minhas filhas, diz o Senhor
todo-poderoso” (2Co 6.18). Somos, portanto, irmãos e irmãs uns dos outros
na família de Deus (Mt 12.49,50; lJo 3.14-18). Uma metáfora de família um tanto
diferente é vista quando Paulo se refere à igreja como a noiva de Cristo. Ele
diz que o relacionamento entre marido e esposa refere-se “a Cristo e à igreja” (Ef 5.32); diz também que ele produziu o compromisso
de noivado entre Cristo e a igreja em Corinto e que isso relembra compromisso
entre a noiva e aquele que vai ser seu marido: “Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a
ele como uma virgem pura” (2Co 11.2)
— aqui Paulo olha com expectativa para o tempo do retorno de Cristo como o
tempo em que a igreja será apresentada a ele como sua noiva.
Em
outras metáforas, a Escritura compara a igreja aos ramos de uma videira (Jo
15.5), a uma oliveira (Rm 11.17-24),a uma lavoura (lCo 3.6-9),a um edifício
(lCo 3.9) e a uma colheita (Mt 13.1-30; lo 4.35). A igreja também é vista como
um novo templo, não
construído com pedras literais, mas construído com pessoas cristãs que são
pedras vivas” (1 Pe 2.5),
edificadas sobre a pedra fundamental” que é Cristo Jesus (lPe 2.4-8). Todavia,
a igreja não é somente um novo templo para a adoração de Deus; é também um novo
corpo de sacerdotes, um “sacerdócio santo” que pode oferecer”sacrifícios
espirituais aceitáveis a Deus”(lPe 2.5). Somos também vistos como casa de Deus
(Hb 3.6), sendo o próprio Jesus Cristo visto como o “construtor” da casa (Hb
3.3). A igreja também é vista como “coluna e fundamento da verdade” (lTm 3.15).
Finalmente,
outra metáfora familiar vê a igreja como o corpo de Cristo (lCo 12.12-27).
Devemos reconhecer que Paulo de fato usa duas metáforas diferentes do corpo
humano quando fala da igreja. Aqui em 1 Coríntios 12 o corpo inteiro é tomado como
metáfora da igreja, porque Paulo fala do “ouvido”, do “olho” e do “olfato” (1
Co 12.16,17). Nessa metáfora, Cristo não é visto como a cabeça ligada ao corpo,
porque os membros individuais são em si mesmos as partes individuais da cabeça.
Cristo é nessa metáfora o Senhor que está “fora” desse corpo que representa a
igreja e é a quem a igreja serve e adora.
Mas
em Efésios 1.22,23; 4.15,16 e em Colossenses 2.19 Paulo usa uma metáfora
diferente de corpo para referir-se à igreja. Nessas passagens, Paulo diz que
Cristo é o cabeça e a igreja é como o restante do corpo, distinto da cabeça:
“Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça,
Cristo. Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas,
cresce edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua
função” (Ef 4.15,16). Não devemos confundir essas duas metáforas, a de
lCoríntios 12 e a de Efésios 4, mas mantê-las distintas.
A ampla gama de
metáforas usada para a igreja no NT deveria nos lembrar de não enfatizar
exclusivamente uma delas. A ênfase indevida em uma metáfora com a exclusão de
outras certamente resultará em uma perspectiva desequilibrada da igreja. Além disso, cada uma das
metáforas usadas para a igreja pode nos ajudar a apreciar mais as riquezas do
privilégio que Deus nos deu incorporando-nos na igreja. O fato de que a igreja
é como uma família deveria aumentar o nosso amor e comunhão uns com os outros.
O pensamento de que a igreja é igual à noiva de Cristo deveria estimular-nos a
lutar pela pureza e santidade maiores e também ao amor e submissão maiores a
Cristo. A imagem da igreja como ramos da videira deveria levar-nos ao descanso
mais pleno em Cristo. Essas são apenas algumas das muitas aplicações que
poderiam ser feitas da rica diversidade de metáforas para a igreja usada na
Escritura.
A igreja e Israel. Entre os protestantes
evangélicos há diferentes perspectivas sobre a questão do relacionamento entre
Israel e a igreja. Uma perspectiva é a dispensacionalista.
De acordo com ela, Deus tem dois planos distintos para dois grupos diferentes
de pessoas que redimiu. Por um lado, os propósitos e as promessas para Israel
são bênçãos terrenas, e serão cumpridas nesta terra em algum tempo no futuro.
Por outro lado, os propósitos e as promessas para a igreja são bênçãos
celestiais, e essas promessas serão cumpridas no céu. Essa distinção entre os
dois grupos diferentes que Deus salva será vista especialmente no milênio, pois
naquele tempo Israel reinará sobre a terra como o povo de Deus e desfrutará o
cumprimento das promessas do AT, mas a igreja a essa altura já terá sido levada
para o céu no tempo do retorno secreto de Cristo para os santos (“o arrebatamento”). Nessa perspectiva,
a igreja não começou antes do Pentecoste (At 2), e não seria correto pensar nos
crentes do AT junto com os crentes do NT constituindo uma igreja.
Diversos
líderes entre os dispensacionalistas mais recentes têm modificado muitos desses
pontos, referindo-se à sua estrutura teológica como “dispensacionalismo
progressivo”. Eles não vêem a igreja como um parêntese no plano de Deus, mas
como o primeiro passo em direção ao estabelecimento do Reino de Deus. Há assim
um propósito único para Israel e a igreja — o estabelecimento do Reino de Deus
— de que ambos, Israel e a igreja, compartilham. Além disso, o
dispensacionalismo progressivo não veria distinção alguma entre Israel e a
igreja no futuro estado eterno, pois todos serão parte do mesmo povo.
Contudo,
há ainda uma diferença entre os dispensacionalistas progressivos e o restante
dos evangélicos sobre um ponto: eles diriam que as profecias do AT concernentes
a Israel ainda serão cumpridas no milênio pelo povo étnico judeu que crerá em
Cristo e que viverá na terra de Israel como “nação-modelo” para a qual todas as nações olhariam e com a qual
todas aprenderiam. Portanto, eles não diriam que a igreja é o “novo Israel” ou que todas as profecias
do AT a respeito de Israel serão cumpridas na igreja, pois essas profecias
ainda serão cumpridas no Israel étnico.
A
posição assumida neste livro difere muito das posições dispensacionalistas
tradicionais. Contudo, deve ser dito aqui que as questões a respeito do modo
exato em que as profecias bíblicas a respeito do futuro serão cumpridas são por
natureza difíceis de decidir com segurança, e é sábio ter algumas hesitações em
nossas conclusões sobre o assunto. Com isso em mente, pode ser dito o que se
segue.
Tanto
teólogos protestantes como católicos que estão fora do círculo
dispensacionalista têm dito que a igreja inclui tanto crentes do AT como do NT
em uma igreja ou um corpo de Cristo. Devemos observar primeiro os muitos
versículos do NT que entendem que a igreja seja o “novo Israel” ou o novo “povo
de Deus”. O fato de que “Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Ef 5.25)
sugere isso. Ademais, esta era atual da igreja, que tem trazido a salvação a
muitos milhões de cristãos, não é uma interrupção ou um parêntese nos planos de
Deus, mas a continuação do seu plano expresso por todo o AT chamando pessoas
para si. Paulo diz: “Não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão
a que é meramente exterior e física. Não! Judeu é quem o é interiormente, e
circuncisão é a operada no coração, pelo Espírito, e não pela Lei escrita” (Rm
2.28,29). Paulo reconhece que, embora haja um sentido natural ou
literal no qual os que descenderam fisicamente de Abraão são chamados judeus,
há também um sentido mais profundo ou espiritual no qual o “judeu verdadeiro” é aquele que é interiormente um crente e cujo
coração foi purificado por Deus.
Paulo
diz que Abraão não deve somente ser considerado o pai do povo judeu em sentido
físico. Ele é também no sentido mais profundo e mais verdadeiro “o pai de todos os
que crêem, sem terem sido circuncidados [...] e é igualmente o pai dos
circuncisos que não somente são circuncisos, mas também andam nos passos da fé
que teve nosso pai Abraão antes de passar pela circuncisão” (Rm 4.11,12; cf. v.
16,18). Portanto, Paulo pode dizer: “Não pensemos que a palavra de Deus falhou.
Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel. Nem por serem descendentes
de Abraão passaram todos a ser filhos de Abraão. Ao contrário: ‘Por meio de Isaque a sua descendência será considerada’. Isto é, não são os filhos naturais que são filhos de Deus,
mas os filhos da promessa é que são considerados descendência de Abraão” (Rm
9.6-8). Paulo aqui sugere que os verdadeiros filhos de Abraão — “Israel” no sentido mais verdadeiro não é a nação de
Israel por ascendência física de Abraão, mas os que creram em Cristo.
Longe
de pensar na igreja como grupo separado do povo judeu, Paulo escreve aos
crentes gentios de Éfeso dizendo-lhes que anteriormente eles estavam “sem Cristo,
separados da comunidade de Israel, sendo estrangeiros quanto às alianças da
promessa, sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef2.12),mas que agora
eles “foram
aproximados mediante o sangue de Cristo” (Ef 2.13).E quando os gentios
foram trazidos à igreja, judeus e gentios foram unidos em um só corpo. Paulo
diz que Deus “destruiu
a barreira, o muro de inimizade, anulando em seu corpo a Lei dos mandamentos
expressa em ordenanças. O objetivo dele era criar em si mesmo, dos dois, um
novo homem, fazendo a paz, e reconciliar com Deus os dois em um corpo, por meio
da cruz, pela qual ele destruiu a inimizade” (Ef 2.14-16). Portanto,
Paulo pode dizer que os gentios são “concidadãos dos santos e membros da família de Deus,
edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo
como pedra angular”(Ef 2.19,20). Com essa consciência ampla do pano
de fundo do AT para a igreja do NT, Paulo pode ainda dizer que “os gentios são
co-herdeiros com Israel, membros do mesmo corpo, e co-participantes da promessa
em Cristo Jesus” (Ef 3.6). A passagem toda fala fortemente da unidade de crentes
judeus e gentios no corpo em Cristo e não dá indicação alguma de qualquer plano
distintivo para a salvação do povo judeu independentemente do corpo de Cristo,
a igreja. A igreja incorpora em si mesma todo o verdadeiro povo de
Deus, e quase todos os títulos usados para o povo de Deus no AT são em um lugar
ou outro aplicados à igreja do NT. Esses textos, juntamente com muitos outros,
nos dão a segurança de que a igreja se tornou agora o verdadeiro Israel de Deus
e vai receber todas as bênçãos prometidas a Israel no AT.
As
“marcas” da igreja (características distintivas)
Há igrejas
verdadeiras e igrejas falsas.
O que realmente torna um grupo de
pessoas uma igreja? O que é
necessário para haver uma igreja? Será que um grupo de pessoas que alegam ser
cristãs pode tornar-se tão diferente do que uma igreja deve ser que ele não
mais possa ser chamado igreja?
Embora
nos primeiros séculos da igreja cristã houvesse pouca controvérsia a respeito
do que seria uma igreja verdadeira, com a Reforma uma questão crucial surgiu:
Como podemos reconhecer uma igreja verdadeira? A Igreja Católica Romana é uma
igreja verdadeira ou não? Para responder a essa pergunta, as pessoas tiveram de
decidir quais eram as “marcas” de uma igreja verdadeira, as características
distintas que nos levam a reconhecê-la como igreja verdadeira.
A
Escritura certamente fala de igrejas falsas. Paulo fala dos templos pagãos em
Corinto: “Quero
dizer que o que os pagãos sacrificam é oferecido aos demônios e não a Deus”
(lCo 10.20). Ele diz aos coríntios: “Vocês
sabem que, quando eram pagãos, de uma forma ou de outra eram fortemente
atraídos e levados para os ídolos mudos” (lCo 12.2).Esses templos pagãos
eram certamente igrejas ou assembléias religiosas falsas. Ademais, a Escritura
pode falar de uma assembléia religiosa que é realmente uma “sinagoga de Satanás” (Ap 2.9; 3.9). Aqui o Senhor
ressuscitado parece estar se referindo a assembléias judaicas nas quais as
pessoas alegavam ser israelitas, mas não eram verdadeiros israelitas que
possuíam a fé salvadora. Suas assembléias religiosas não eram assembléias do
povo de Cristo nessa época, mas dos que ainda pertenciam ao reino das trevas, o
reino de Satanás. Isso certamente também seria uma igreja falsa.
Em
grande medida, havia concordância entre Lutero e Calvino sobre essa questão da
constituição da verdadeira igreja.A afirmação de fé luterana, chamada Confissão
de Augsburgo (1530), definiu a igreja como “a congregação de todos os crentes, entre os quais o
evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de
acordo com o evangelho” (Art. VII). Semelhantemente, João Calvino
disse: “Pois,
onde quer que vemos a Palavra de Deus ser sinceramente pregada e ouvida, onde
[vemos] serem os sacramentos administrados segundo a instituição de Cristo, aí,
de modo nenhum se há de contestar, está uma igreja de Deus”. Ainda
que haja ligeiras diferenças nessas confissões, o entendimento que eles tiveram
das marcas distintivas de uma verdadeira igreja é muito semelhante. Em
contraste com a visão de Lutero e de Calvino com respeito às marcas da igreja,
a posição da Igreja Católica Romana tem sido que a igreja visível, que
descendeu de Pedro e dos apóstolos, é a verdadeira igreja.
Parece
apropriado considerar a visão de Lutero e Calvino sobre as marcas da verdadeira
igreja como correta ainda hoje. A primeira marca que eles observaram foi a
pregação correta da Palavra. Certamente, se a Palavra de Deus não está sendo
pregada, mas simplesmente as falsas doutrinas ou as doutrinas humanas, então
não há verdadeira igreja. Em alguns casos, podemos ter dificuldade em
determinar exatamente quantas doutrinas errôneas podem ser toleradas antes de
uma igreja deixar de ser considerada uma verdadeira igreja, mas há casos muito
claros em que podemos dizer que uma igreja verdadeira não existe. Por exemplo,
a Igreja de Jesus Cristo dos
Santos dos Últimos Dias (mórmon) não sustenta qualquer doutrina
fundamental sobre a salvação, sobre a pessoa de Deus ou sobre a pessoa e obra
de Jesus. Ela é claramente uma igreja falsa. Semelhantemente, as Testemunhas de
Jeová ensinam a salvação pelas obras, não somente pela confiança em
Cristo. Isso é um desvio de uma doutrina fundamental, porque, se as pessoas
crêem nos ensinos desse grupo, elas simplesmente não serão salvas. Assim, as
Testemunhas de Jeová também devem ser consideradas uma igreja falsa. Quando a
pregação de uma igreja esconde de seus membros a mensagem do evangelho de salvação
somente pela fé, de modo que a mensagem do evangelho não é claramente
proclamada e não vem sendo proclamada há algum tempo, esse grupo específico não
é realmente uma igreja.
A segunda marca
da igreja, a
administração correta dos sacramentos (batismo e ceia do Senhor), foi provavelmente
afirmada em oposição ao ensino da Igreja Católica Romana de que a graça
salvadora vem por meio dos sacramentos e, portanto, os sacramentos tornaram-se “obras” pelas
quais nós temos mérito em nossa salvação. Desse modo, a Igreja Católica Romana
estava insistindo no pagamento antes que no ensino da fé como o único meio de
obter salvação, obscurecendo assim o evangelho. A necessidade de proteger a
pureza do evangelho é uma razão para considerar o uso correto dos sacramentos
(ou “ordenanças”, como são chamados pelos batistas) como a marca de uma
verdadeira igreja.
Mas
existe a segunda razão para incluir os sacramentos (ou ordenanças) como marca
da igreja. Uma vez que uma organização comece a praticar o batismo e a ceia do
Senhor, ela demonstra ser uma organização que continua essas práticas e está
tentando funcionar como uma igreja. (Na sociedade moderna, uma organização que
comece a se reunir aos domingos pela manhã para a adoração, a oração e para
ensinar a Bíblia estará demonstrando claramente que está tentando funcionar
como uma igreja.)
Uma
terceira razão para incluir o uso correto dos sacramentos (ou ordenanças) é que
o batismo e a ceia do Senhor servem como “controle
do rol de membros” da igreja. O batismo é o meio de admissão de pessoas em
uma igreja, e a ceia do Senhor é o meio de permitir que pessoas dêem um sinal
de sua permanência no rol de membros da igreja — isso quer dizer que a igreja
considera os que recebem o batismo e a ceia do Senhor como pessoas salvas. Portanto,
essas atividades indicam o que uma igreja pensa a respeito da salvação, e elas
são devidamente listadas como uma marca da igreja também hoje. Por contraste,
os grupos que não administram o batismo e a ceia do Senhor indicam que não
pretendem funcionar como uma igreja. Alguém pode permanecer em uma esquina com
uma pequena multidão, e haver uma verdadeira pregação, com pessoas ouvindo a
Palavra, mas o povo reunido não seria uma igreja. Mesmo um estudo bíblico feito
num lar pode ter verdadeiro ensino e pessoas ouvindo a Palavra sem tornar-se
uma igreja. Mas se um estudo bíblico em um local começa a batizar os
recém-convertidos e eles passam regular-mente a participar da ceia do Senhor,
tais atitudes demonstram a intenção de funcionar como uma igreja, portanto
seria difícil não considerar esse grupo uma igreja em si mesma.
Igrejas verdadeiras e falsas hoje. Em razão da questão colocada
durante a Reforma, o que dizer a respeito da Igreja Católica Romana hoje? É uma
igreja verdadeira? Aqui parece que não podemos simplesmente tomar uma decisão
com respeito a ela como um todo porque está hoje muito diversificada. Algumas
paróquias católicas certamente carecem de ambas as marcas —há pouca ou nenhuma
pregação verdadeira da Palavra, e a mensagem de salvação do evangelho somente
pela fé em Cristo não é conhecida ou recebida pelas pessoas. A participação nos
sacramentos é vista como uma “obra” que pode alcançar mérito com Deus. Tal grupo
de pessoas não é uma verdadeira igreja cristã. Em contrapartida, há atualmente
muitas paróquias católicas em várias partes do mundo nas quais o sacerdote
local tem conhecimento salvador genuíno de Cristo e um relacionamento vital e
pessoal com Cristo em oração e estudo da Bíblia. Suas homilias e o ensino
particular da Bíblia colocam muita ênfase na fé pessoal e na necessidade de
leitura individual da Bíblia e de oração. Seu ensino sobre os sacramentos
enfatiza os aspectos simbólicos e comemorativos em vez de tratá-los como atos
que ocasionam a infusão da graça salvadora. Em tal caso, embora devamos dizer
que ainda temos profundas diferenças com o ensino católico em relação a algumas
doutrinas, entretanto parece que tal igreja se aproximaria a tal ponto das duas
marcas da igreja que seria difícil negar que ela é de fato uma verdadeira
igreja. Ela pareceria constituir uma genuína congregação de crentes na qual o
evangelho é ensinado (embora não puramente) e os sacramentos são administrados
mais correta que erroneamente.”
Há
igrejas falsas dentro do protestantismo? Olhando para as duas marcas
distintivas da igreja, parece-me que muitas igrejas protestantes liberais de
hoje são de fato falsas igrejas. Será que o evangelho da justiça pelas obras e
da incredulidade na Escritura que essas igrejas ensinam é muito diferente com
respeito à salvação do ensino da Igreja Católica Romana no tempo da Reforma? E
o que essas igrejas fazem, administrando os sacramentos sem o ensino da sã
doutrina a qualquer pessoa que aparece, dando falsa segurança a pecadores não
regenerados, não é semelhante ao que os católicos faziam com os sacramentos no
tempo da Reforma? Quando há uma assembléia de pessoas que leva o nome cristã,
mas que ensina firmemente que as pessoas não podem crer em sua, Bíblias — de
fato, uma igreja cujo pastor e congregação raramente lêem suas Bíblias ou oram
de modo significativo, e não crêem ou talvez nem mesmo entendam o evangelho da
salvação somente pela fé em Cristo — como podemos dizer que essa é uma
verdadeira igreja?
Os
propósitos da igreja
Podemos
entender os propósitos da igreja em termos de ministério para com Deus, com os
crentes e com o mundo.
1. Ministério para com Deus:
Adoração.
Em relação a Deus, o propósito da igreja é adorá-lo. Paulo aconselha a igreja
de Colossos:”Cantem salmos,hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em
seu coração” (Cl 3.16). Deus nos destinou em Cristo e nos separou “a fim de que
nós sejamos para o louvor da sua glória” (Ef 1.12).A adoração na igreja não é
meramente a preparação para algo mais; ela é em si mesma o cumprimento do maior
propósito da igreja com referência ao seu Senhor. Essa é a razão pela qual
Paulo exortou os efésios a aproveitar “ao máximo cada oportunidade”, associando
isso com o mandamento para que se enchessem do Espírito e, então, falassem
entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de
coração ao Senhor” (Ef 5.16-19).
2. Ministério para com os crentes:
Fortalecimento.
Segundo a Escritura, a igreja tem a obrigação de fortalecer os que já são
crentes e edificá-los para chegarem à maturidade da fé. Paulo disse que seu
alvo não era simplesmente trazer pessoas à fé inicial, mas advertir e ensinar
“a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em
Cristo” (Cl 1.28). E ele disse à igreja de Éfeso que Deus deu à igreja pessoas
capacitadas “com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para
que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé
e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a
medida da plenitude de Cristo” (Ef 4.12,13). É claramente contrário ao padrão
do NT pensar que o nosso único objetivo com as pessoas é trazê-las à fé
salvadora inicial. Nosso alvo como igreja deve ser apresentar perante Deus todo
cristão “perfeito em Cristo” (CL 1.28).
3. Ministério para com o mundo:
Evangelização
e misericórdia. Jesus disse aos discípulos que eles deveriam fazer “discípulos
de todas as nações” (Mt 28.19). Essa obra evangelística de declarar o evangelho
é o ministério primário que a igreja tem para com o mundo. Todavia, um ministério
de misericórdia deve vir acompanhando o ministério de evangelização, um
ministério que inclua a preocupação com os pobres e necessitados, em nome do
Senhor. Embora a ênfase do NT seja sobre dar ajuda material aos que são parte
da igreja (At 11.29; 2Co 8.4; lJo 3.17), há ainda a afirmação de que é justo
ajudar os descrentes mesmo que eles não respondam com gratidão ou que não
aceitem a mensagem do evangelho. Jesus nos diz: “Amem, porém, os seus inimigos,
façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem esperar receber nada de volta. Então,
a recompensa que terão será grande e vocês serão filhos do Altíssimo, porque
ele é bondoso para com os ingratos e maus. Sejam misericordiosos, assim como o
pai de vocês é misericordio” (Lc 6.35,36).
O
argumento da explicação de Jesus é que devemos imitar Deus em ser amáveis para
os que são ingratos e maus.
Além
disso, temos o exemplo de Jesus, que não buscou curar somente os que o
aceitaram como Messias. Antes, quando grandes multidões vieram a ele, “ele os
curou, impondo as mãos sobre cada um deles” (Lc 4.40). Isso deveria dar-nos
encorajamento para praticar ações amáveis e orar pela cura e por outras
necessidades na vida dos descrentes assim como na dos crentes. Tais ministérios
de misericórdia ao mundo podem também incluir a participação em atividades
cívicas ou a tentativa de influenciar a política governamental para torná-la
mais compatível com os princípios morais da Bíblia. Nas áreas onde há
sistematicamente injustiça manifestada no tratamento aos pobres, a grupos étnicos
ou ainda a minorias religiosas, a igreja deveria também orar e — à medida que
tem a oportunidade — pregar contra a injustiça. Todos esses são caminhos pelos
quais a igreja pode suplementar o seu ministério evangelístico ao mundo e, de
fato, embelezar o evangelho que professa. Mas tais ministérios de misericórdia
ao mundo nunca devem tornar-se um substituto da genuína evangelização ou de
outras áreas do ministério para com Deus e para com os crentes mencionados
anteriormente.
4. Mantendo esses propósitos em equilíbrio:
Uma
vez que mencionamos esses propósitos para a igreja, alguém poderia perguntar:
“Qual é o mais importante?”. Ou outra pessoa perguntaria: “Poderíamos
considerar um desses três menos importante que os outros?”.
Devemos
responder que os três propósitos da igreja são ordenados por Deus na Escritura;
portanto, todos são importantes e nenhum deles pode ser negligenciado. De fato,
uma igreja forte terá ministérios eficazes nessas três áreas. Devemos nos
precaver contra quaisquer tentativas de reduzir o propósito da igreja a somente
um dos três e dizer que esse deveria ser o foco principal. De fato, tais
tentativas de tornar um dos três propósitos mais importantes sempre resultarão
em alguma negligência dos outros dois.
Contudo,
diferentemente das igrejas, os indivíduos devem estabelecer uma prioridade em
relação a um ou outro desses propósitos da igreja. Porque somos iguais a um
corpo com diversos dons espirituais e capacidades, é correto colocarmos ênfase
maior no cumprimento do propósito da igreja que está relacionado mais de perto
com os dons e interesses que Deus nos deu. Quem tem o dom de evangelização deve
naturalmente gastar algum tempo com a adoração e preocupação com os crentes,
mas pode acabar gastando muito mais tempo na obra evangelística. Alguém que é
líder capacitado em matéria de adoração pode dedicar 90% de seu tempo na igreja
à preparação e à condução do culto. Essa é apenas uma resposta apropriada para
a diversidade de dons que Deus nos deu.
Os
propósitos da igreja
Podemos
entender os propósitos da igreja em termos de ministério para com Deus, com os
crentes e com o mundo.
1. Ministério para com Deus:
Adoração.
Em relação a Deus, o propósito da igreja é adorá-lo. Paulo aconselha a igreja
de Colossos:”Cantem salmos,hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em
seu coração” (Cl 3.16). Deus nos destinou em Cristo e nos separou “a fim de que
nós sejamos para o louvor da sua glória” (Ef 1.12).A adoração na igreja não é
meramente a preparação para algo mais; ela é em si mesma o cumprimento do maior
propósito da igreja com referência ao seu Senhor. Essa é a razão pela qual
Paulo exortou os efésios a aproveitar “ao máximo cada oportunidade”, associando
isso com o mandamento para que se enchessem do Espírito e, então, falassem
entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de
coração ao Senhor” (Ef 5.16-19).
2. Ministério para com os crentes:
Fortalecimento.
Segundo a Escritura, a igreja tem a obrigação de fortalecer os que já são
crentes e edificá-los para chegarem à maturidade da fé. Paulo disse que seu
alvo não era simplesmente trazer pessoas à fé inicial, mas advertir e ensinar
“a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em
Cristo” (Cl 1.28). E ele disse à igreja de Éfeso que Deus deu à igreja pessoas
capacitadas “com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para
que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé
e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a
medida da plenitude de Cristo” (Ef 4.12,13). É claramente contrário ao padrão
do NT pensar que o nosso único objetivo com as pessoas é trazê-las à fé
salvadora inicial. Nosso alvo como igreja deve ser apresentar perante Deus todo
cristão “perfeito em Cristo” (CL 1.28).
3. Ministério para com o mundo:
Evangelização
e misericórdia. Jesus disse aos discípulos que eles deveriam fazer “discípulos
de todas as nações” (Mt 28.19). Essa obra evangelística de declarar o evangelho
é o ministério primário que a igreja tem para com o mundo. Todavia, um
ministério de misericórdia deve vir acompanhando o ministério de evangelização,
um ministério que inclua a preocupação com os pobres e necessitados, em nome do
Senhor. Embora a ênfase do NT seja sobre dar ajuda material aos que são parte
da igreja (At 11.29; 2Co 8.4; lJo 3.17), há ainda a afirmação de que é justo
ajudar os descrentes mesmo que eles não respondam com gratidão ou que não
aceitem a mensagem do evangelho. Jesus nos diz: “Amem, porém, os seus inimigos,
façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem esperar receber nada de volta. Então,
a recompensa que terão será grande e vocês serão filhos do Altíssimo, porque
ele é bondoso para com os ingratos e maus. Sejam misericordiosos, assim como o
pai de vocês é misericordio” (Lc 6.35,36).
O
argumento da explicação de Jesus é que devemos imitar Deus em ser amáveis para
os que são ingratos e maus.
Além
disso, temos o exemplo de Jesus, que não buscou curar somente os que o
aceitaram como Messias. Antes, quando grandes multidões vieram a ele, “ele os
curou, impondo as mãos sobre cada um deles” (Lc 4.40). Isso deveria dar-nos
encorajamento para praticar ações amáveis e orar pela cura e por outras
necessidades na vida dos descrentes assim como na dos crentes. Tais ministérios
de misericórdia ao mundo podem também incluir a participação em atividades
cívicas ou a tentativa de influenciar a política governamental para torná-la
mais compatível com os princípios morais da Bíblia. Nas áreas onde há sistematicamente
injustiça manifestada no tratamento aos pobres, a grupos étnicos ou ainda a
minorias religiosas, a igreja deveria também orar e — à medida que tem a
oportunidade — pregar contra a injustiça. Todos esses são caminhos pelos quais
a igreja pode suplementar o seu ministério evangelístico ao mundo e, de fato,
embelezar o evangelho que professa. Mas tais ministérios de misericórdia ao
mundo nunca devem tornar-se um substituto da genuína evangelização ou de outras
áreas do ministério para com Deus e para com os crentes mencionados
anteriormente.
4. Mantendo esses propósitos em equilíbrio:
Uma
vez que mencionamos esses propósitos para a igreja, alguém poderia perguntar:
“Qual é o mais importante?”. Ou outra pessoa perguntaria: “Poderíamos
considerar um desses três menos importante que os outros?”.
Devemos
responder que os três propósitos da igreja são ordenados por Deus na Escritura;
portanto, todos são importantes e nenhum deles pode ser negligenciado. De fato,
uma igreja forte terá ministérios eficazes nessas três áreas. Devemos nos
precaver contra quaisquer tentativas de reduzir o propósito da igreja a somente
um dos três e dizer que esse deveria ser o foco principal. De fato, tais
tentativas de tornar um dos três propósitos mais importantes sempre resultarão
em alguma negligência dos outros dois.
Contudo,
diferentemente das igrejas, os indivíduos devem estabelecer uma prioridade em
relação a um ou outro desses propósitos da igreja. Porque somos iguais a um
corpo com diversos dons espirituais e capacidades, é correto colocarmos ênfase
maior no cumprimento do propósito da igreja que está relacionado mais de perto
com os dons e interesses que Deus nos deu. Quem tem o dom de evangelização deve
naturalmente gastar algum tempo com a adoração e preocupação com os crentes,
mas pode acabar gastando muito mais tempo na obra evangelística. Alguém que é
líder capacitado em matéria de adoração pode dedicar 90% de seu tempo na igreja
à preparação e à condução do culto. Essa é apenas uma resposta apropriada para
a diversidade de dons que Deus nos deu.
Teologia
Sistemática.
Wayne
Grudem.
Ed.
Vida.
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